Como jornalista, já produzi textos nos mais variados gêneros, mas essa é a minha primeira crítica de cinema.

Trata-se do filme mais sereno do ano. Um lançamento exclusivo que pirateio em tempo real. Governo nenhum poderá me perseguir porque, felizmente, eu detenho parte dos direitos autorais dessa magnífica obra cinematográfica.

A trilha sonora que escolhi tem voz aguda e rouca ao mesmo tempo e canta que “os tempos, eles estão mudando”, antes de assoprar tudo o que eu sinto através de uma gaita. Mas preciso pausar o Bob, porque sou apenas a co-diretora desse longa-metragem que já dura três horas, vinte e nove minutos e cinqüenta e sete segundos. Você abriu os olhos, deu play numa música em espanhol sobre pombas e almas e voltou a fechar os olhos.

O cenário é uma cama. Um travesseiro com fronha branca e amarela está dobrado no meio embaixo da cabeça do protagonista. Ele dorme de lado e tenta sonhar com a plateia que não aguarda atenta à próxima cena. Esse não é um filme de suspense. Aqui, sem pipoca, menthos ou óculos 3D, contemplo as veias do seu braço direito e como a barra da manga esquerda da sua camiseta cinza chumbo revela sobre a sua pele um vão muito convidativo à interação da telespectadora.

Enquanto os bons e velhos garotos bebem uísque e cantam sobre a o dia em que a música morreu você desarruma os próprios cabelos e muda o ritmo do filme para uma lambada. Seria o ponto baixo dessa produção caseira, devo admitir, não fosse o sorriso maroto de carismático ator-revelação, que conquistou a audiência logo na vinheta de abertura.

Acabou minha última vida. Trouxe comigo um colete azul, uma caneca laranja e um coração vermelho-sangue. Deixei para trás um segredo escancarado, muitas horas à sombra das árvores e pedaços de mim espalhados pelo mundo.

Me sinto como o Rei Branco, carregado no ar por uma invisível Alice. Como se uma pinça mágica controlasse minha localização geográfica e não houvesse nada que eu pudesse fazer para mudar meu destino.

não vou casar na igreja com vestido branco. brincar de noiva na festa à fantasia ou na junina não é a revelação de um desejo reprimido pelo feminismo, aquele papa-noivas vermelho e anti-democrático. o feminismo é libertação. veja a vista do outro lado da janela.

do meu ventre não vai sair ninguém. não descarto adotar alguma daquelas crianças fenomenais que já são “velhas demais”, ainda que essa ideia me pareça tão etérea como o discurso que eu pretendo dar quando receber o Oscar de melhor roteiro adaptado, quando eu adaptar o meu best-seller pra telona. mas o meu “relógio biológico” veio quebrado de fábrica. quando criança eu fingia que minhas bonecas eram meus irmãos mais novos.

eu não parei de comer carne para te fazer sentir mal porque você ainda come bichinhos indefesos. parei porque sou livre pra comer o que quiser. eu não dou a mínima para a tua dieta. devolva-me a cortesia e então eu não precisarei rolar os olhos para o teto, dar risadinhas sem graça e coerentes com as piadas que você acha que inventou sobre o tema.

eu tenho saias curtas. eu visto saias curtas. não é esse o problema.

quando eu digo que alguém que aceita uma relação monogâmica e trai tem uma falha tremenda no carácter, estou falando sério. se você é fraco demais e precisa de justificativas para poder dormir à noite, procure-as em outro lugar. e o namorado da minha amiga tem a mesma relevância que o namorado de qualquer fulana que eu não conheço. os dois estão fora dos meus limites porque, quando eu digo que não curto hipocrisia, também estou falando sério.

eu não entendo isso de sentir ciúme doentio. não entra na minha cabeça isso de se comprometer tão a sério com alguém em quem a gente não confia. eu já senti ciúme, mas não é nada doentio. eu percebo que é ciúme, deixo-o fervendo uns minutos e depois desligo o fogo e ele logo esfria. confia logo, e se o resultado for a queda da casa, tenha certeza que a próxima que você construir será mais forte.

nossa, olha o que escrevi no primeiro parágrafo… eu não pretendo casar e ponto. se eu resolver juntar, enviarei um cartão-postal avisando meu amigo Samuel, o melhor marido que eu já tive. e só pra ele porque ele faz coleção. o resto de vocês eu aviso por e-mail.

eu faço mais piadas do que deveria. brinco mais do que falo a sério. se não consegue reparar nisso, talvez é melhor ler com os olhos abertos da próxima vez.

esse texto só tem uma piada. veja só como eu sou atenciosa e evito a tua confusão.

conte quantas vezes eu usei a palavra odeio nesse ano. compare com o resto dos mortais, e só então venha falar comigo sobre os meus ódios e bravezas. se nem o basquete eu digo que odeio, não é a você que eu vou estender tamanha honra.

ok, já podes dizer que o sangue a correr pelo meu coração gelado não pode ser normal. só não deixe comentários.

Uma das minhas professoras favoritas foi a pequenina e poderosa Tomie, mestre das matemáticas. Não tinha aula em que o ritual deixava de se repetir. Tocava o sinal e, enquanto os alunos fechavam os cadernos, Tomie resolvia passar a lição de casa. Ecoávamos em uníssono:

- Ah não, pssora!
- Anão é um homem menor do que eu e a Aninha.

Aninha é como me chamam os egressos de todos os colégios jesuítas do Brasil. Apesar do meu metro e cinqüenta e pouco, são poucas as pessoas que eu realmente considero alta. Vai ver é o meu jeito enfezado que não me deixa intimidar apenas pela extensão vertical de alguém. Para que isso aconteça, é preciso impor-se com mais do que altura. Faz falta a atitude.

O raciocínio acima leva a uma natural conclusão: Martinho Marcos de Freitas foi o homem mais alto do mundo. Seus longos cabelos negros, embranquecidos pelo tempo, dançavam em um ritmo próprio quando Martinho caminhava pelos corredores do Colégio São Luís. Ele raramente passava os dedos pelo cabelo, deixava-os livres para posicionar-se da maneira que achassem mais apropriado. As correntes que ele usava no pescoço, por outro lado, descansavam sempre quietas sobre as camisetas de tons rosados e sob as camisas de botão xadrez ou tingidas. E o mais próximo possível de seu coração.

Visto lá de baixo, por uma garota baixinha, ele sempre parecia ter de desviar do batente das portas e, de vez em quando, até do teto, tão alto era aquele homenzarrão calmo, de fala pausada e uma paciência infinita para explicar quantas vezes fossem necessárias o motivo pelo qual o verbo era transitivo direto. Seu talento como professor não me impressionava, porque naquela época eu não pensava nas causas e conseqüências da vida em geral. Nunca ponderei os motivos pelos quais ele decidiu dar aulas. Se ele deixou o cabelo crescer e furou a orelha para fazer pirraça com os pais e no fim gostou do visual. Se ele gostava mais de dar aulas no cursinho ou no colégio.

Martinho era sinônimo de conhecimento, segurança, futuro. Driblava aquele sentimento de obrigação irremediável de ter que assistir aula que atinge todos os centímetros da nossa alma de vez em quando. Eu sabia separar essa sensação inevitável do sentimento que nutria pelos professores e não desgostava de nenhum deles por tabela.

Mas eu sabia diferenciá-los. Os que acreditaram em mim e os que me colocaram na lista de quem só passaria na FAAP. Os que me faziam sentir em boas mãos, e estimulada a fazer com que um dia se orgulhassem de mim como eu me orgulhava de ter aprendido com eles, e os que só tinha poder sobre mim por causa da hierarquia escolar.

Além de VTDs e VTIs, e de me fazer apaixonar por O Guarani, Martinho também me ensinou que precisamos tratar nosso idioma com carinho e nunca se acomodar às formas fáceis de abusar dele como se fosse uma ferramenta tão descartável como uma caneta BIC. E que ser bom, no que quer que seja, não basta. É preciso ser o melhor possível. A prova de Português na Fuvest foi a única mais fácil que os exames bimestrais do terceiro colegial, e foi por causa disso que deixei o Taguchi, meu professor de Física, sem resposta quando lhe contei que estava estudando Relações Públicas e ele perguntou se era na FAAP. “Não, na USP”, disse eu, na primeira e última vez em que senti orgulho de ostentar essa grife.

Conheci o Martinho anos antes de ele vir a ser meu professor, quando os meninos do colegial que foram monitores do acampamento dos pirralhos da quinta-série queriam alguém leve o suficiente para fingir que nadava pela janelinha da sala de aula dele. Desde aquele dia, quando levei uma bronca disfarçada de brincadeira, encaixei Martinho na primeira categoria. E não fui a única, pelo que pude ver no Orkut dele, onde gente muito mais nova e muito mais velha do que eu deixam há anos recados contando suas novidades, agradecendo os desejos de Feliz Aniversário que ele oferecia e simplesmente avisando que sentiam saudades daquele que, certamente, iria trabalhar de havaianas, se o colégio permitisse.

Eu poderia usar aqui todos os superlativos do mundo para medir a altura de Martinho. Não há girafa ou torre altas o suficiente para competir com esse arranha-céu humano. De tão alto, Martinho acabou raspando a cabeça no céu. Talvez o enfarto fulminante que o vitimou ontem torne escassos os recados em seu Orkut. Mas 27 anos de classes bem dadas o manterão vivo por várias gerações.

“Pessoal, vamos fazer mais silêncio na aula, por favor? Porque senão vocês vão acordar a Aninha…”

martinho

lembra desse post? pois acho que encontrei.

maybe i’ve forgotten
the name and the address
of everyone i’ve ever known
there’s nothing i regret.

estou buscando passagens para o Brasil (não me pergunte quando eu vou voltar, se você quer manter nossa amizade) num site indicado pela minha irmã. diz lá que garantem o melhor preço, mas pelo visto a confusão vem grátis no serviço.

procuro primeiro vôos de Lisboa a São Paulo, porque estou no noroeste da Espanha e fica fácil chegar até lá. o vôo mais barato é um da Lufthansa. sai de Lisboa, faz uma escala de NOVE HORAS em frankfurt e vai pro Brasil.

resolvo procurar então, nas mesmas datas, vôos diretos de Frankfurt, para ver se é mais barato e se vale a pena voar com uma companhia de baixo custo até a Alemanha. diz o resultado que o vôo mais em conta é da Iberia: sai de Frankfurt, faz uma parada de NOVE HORAS em Madri e depois segue pro Brasil.

tento buscar vôos de Madri a São Paulo, porque tem ônibus direto daqui para o aeroporto de Barajas, e então me aparece o resultado mais econômico: TAP, saindo de Madri, con escala de DEZ HORAS em Lisboa e, por fim, até o Brasil.

o que estou fazendo errado hein?

*Here’s why whining doesn’t work as well as being proactive (and polite). Not only did they reply to my e-mail right away, but a few hours laters they implemented the flash thingy I suggested. I <3 them Twitter folks.

Dear folks at Twitter,

First of all, I think you guys are cool just to be working at an awesome place like Twitter. I’m pretty sure you all agree that Twitter is wicked and you want to help make it even better than it already is.

I also know that “consumers” tend to be a bunch of whiners. They whine when the waiter brings the normal Coke instead of diet, or that the cheese was melted, not shredded. They whine then and there and then go to their Twitter to whine some more. Then they whine asking for the other whiners to retweet them so more people will be aware that waiters are human beings and that all human beings, whether they whine or not, are not perfect.

The whiners think that just because they’re “the client”, they’re always right, and have the right to whine all they want. We all know that a collaborative society isn’t about consuming, or whining. It’s about team work.

That being said, I guess it’s crystal clear that Twitter is not perfect, because it is made by human beings. Nonetheless, it is cool. I like it just as much as you guys. But I thought maybe I could share with you some thoughts I had on a specific area I notice you’ve been working on these past few days: the followers page.

There is only one thing I hate about Twitter, and that is spam. I hate the fact that anyone gets to follow me because THINGS begin to follow me. Things such as bots, corporate accounts and pairs of breasts. They follow me like crazy, and I suspect it has nothing to do with what I post. They get a hold of me whenever I post and show up on the timeline. They are sneaky little rugrats!

Well, you already know that, as sometimes, when you guys are on a roll, you already suspended the account by the time I try to block it. Nonetheless, there are times when it seems you already know that account is doomed to be suspended because it shows up on my followers page, but I don’t get an e-mail alert.

And there are times when there’s some sort of a glitch. A few days ago, and more people noticed it too, some bots started following the people who were tweeting. We blocked them, but they still show up on our followers page, even though it says they are blocked. That was a first for me, and I can imagine you understand how disturbing it is to see pairs of boobs on my followers page without having the power to remove them. (I guess it is convenient to clarify that, to me, softcore porn is still porn.)

The new bots that found me after that have all been adequately banned, but these ones from last Sunday remain and I hope you can make them gone soon.

Also, I would suggest that you made it easier for people to ban other people. I understand the concept of excluding someone from accessing your account seems mean, arrogant, selfish and has little to do with the collaborative society I defended a couple paragraphs ago. Nonetheless, I only use execute my prerogative to ban when it comes to bots and spam. And when they show up in bunches (as is their style), it bothers me immensely having to go to a different page to read the warning about the consequences of a ban, before I can confirm that, yes, I want to ban that account.
I understand the importance of such warning, I really do. But I suspect that, now that you guys have remodelled the followers page with more details, you will probably also be able to come up with a cute little flash script or whatever it is you guys call it that will pop up a window nice and easy that includes a short version of the warning, but also allows me to happily ban all the pairs of breasts I please. I promise I will use this new and liberating power with moderation.

Hope you are all having a fantastic time trying to cook things up to make Twitter even cooler, and that my request isn’t all that absurd.

All the best,

@anarina

Viva a crise do jornalismo impresso. Já reduziram o salário da equipe do New York Times e eliminaram suplementos regionais e a cobertura sobre moda. Falta agora parar de publicar notícias sobre todos os outros assuntos.

Quando isso acontecer, que os outros meios de comunicação sigam os mesmos passos. Abaixo os telejornais, as rádios e o jornalismo digital, com todas as suas possibilidades de integrar meios e descobrir novas narrativas para contar histórias.

Quero o fim da contação de histórias. São todas ruins, inclusive as bem contadas. E ninguém demonstra realmente ter interesse nelas.

Sonho com o dia em que cada um acordará, fará o que tiver que fazer, conversará com as pessoas que estejam ao seu lado, olhará nos seus olhos sem piscar, encostará nelas, lhes dará um abraço suave. Olhará para fora da janela de casa, do carro ou do ônibus e contemplará o céu nublado, o mar brilhando ao longe, a grama e as flores de um amarelo quase neon. E não precisará preencher os silêncios com piadas, porque a companhia um do outro será boa e desejada o suficiente para cumprir a cota diária de entretenimento, sorrisos e felicidade.

Os assuntos serão os sonhos, as vontades, as memórias, as impressões, o amarelo das flores, o galo que canta ao meio-dia e o vento que nunca perde o fôlego.

Ninguém mencionará a crise financeira, o novo presidente da Junta, as decisões editoriais dos jornais (que já não existirão). Saberemos que há pessoas presas injustamente, buscando vias não-democráticas para chegar ao poder, escondendo o jogo, mentindo descaradamente, mentindo veladamente, morrendo sem saber, morrendo de arrependimento, falhando na tentativa de dormir, pensando em quem não devia, remoendo a culpa, justificando erros.

Se a terra tremer, nos abraçaremos.
Se a terra se mantiver firme e estável, nos abraçaremos.

À noite, dormiremos.