Uma das minhas professoras favoritas foi a pequenina e poderosa Tomie, mestre das matemáticas. Não tinha aula em que o ritual deixava de se repetir. Tocava o sinal e, enquanto os alunos fechavam os cadernos, Tomie resolvia passar a lição de casa. Ecoávamos em uníssono:
- Ah não, pssora!
- Anão é um homem menor do que eu e a Aninha.
Aninha é como me chamam os egressos de todos os colégios jesuítas do Brasil. Apesar do meu metro e cinqüenta e pouco, são poucas as pessoas que eu realmente considero alta. Vai ver é o meu jeito enfezado que não me deixa intimidar apenas pela extensão vertical de alguém. Para que isso aconteça, é preciso impor-se com mais do que altura. Faz falta a atitude.
O raciocínio acima leva a uma natural conclusão: Martinho Marcos de Freitas foi o homem mais alto do mundo. Seus longos cabelos negros, embranquecidos pelo tempo, dançavam em um ritmo próprio quando Martinho caminhava pelos corredores do Colégio São Luís. Ele raramente passava os dedos pelo cabelo, deixava-os livres para posicionar-se da maneira que achassem mais apropriado. As correntes que ele usava no pescoço, por outro lado, descansavam sempre quietas sobre as camisetas de tons rosados e sob as camisas de botão xadrez ou tingidas. E o mais próximo possível de seu coração.
Visto lá de baixo, por uma garota baixinha, ele sempre parecia ter de desviar do batente das portas e, de vez em quando, até do teto, tão alto era aquele homenzarrão calmo, de fala pausada e uma paciência infinita para explicar quantas vezes fossem necessárias o motivo pelo qual o verbo era transitivo direto. Seu talento como professor não me impressionava, porque naquela época eu não pensava nas causas e conseqüências da vida em geral. Nunca ponderei os motivos pelos quais ele decidiu dar aulas. Se ele deixou o cabelo crescer e furou a orelha para fazer pirraça com os pais e no fim gostou do visual. Se ele gostava mais de dar aulas no cursinho ou no colégio.
Martinho era sinônimo de conhecimento, segurança, futuro. Driblava aquele sentimento de obrigação irremediável de ter que assistir aula que atinge todos os centímetros da nossa alma de vez em quando. Eu sabia separar essa sensação inevitável do sentimento que nutria pelos professores e não desgostava de nenhum deles por tabela.
Mas eu sabia diferenciá-los. Os que acreditaram em mim e os que me colocaram na lista de quem só passaria na FAAP. Os que me faziam sentir em boas mãos, e estimulada a fazer com que um dia se orgulhassem de mim como eu me orgulhava de ter aprendido com eles, e os que só tinha poder sobre mim por causa da hierarquia escolar.
Além de VTDs e VTIs, e de me fazer apaixonar por O Guarani, Martinho também me ensinou que precisamos tratar nosso idioma com carinho e nunca se acomodar às formas fáceis de abusar dele como se fosse uma ferramenta tão descartável como uma caneta BIC. E que ser bom, no que quer que seja, não basta. É preciso ser o melhor possível. A prova de Português na Fuvest foi a única mais fácil que os exames bimestrais do terceiro colegial, e foi por causa disso que deixei o Taguchi, meu professor de Física, sem resposta quando lhe contei que estava estudando Relações Públicas e ele perguntou se era na FAAP. “Não, na USP”, disse eu, na primeira e última vez em que senti orgulho de ostentar essa grife.
Conheci o Martinho anos antes de ele vir a ser meu professor, quando os meninos do colegial que foram monitores do acampamento dos pirralhos da quinta-série queriam alguém leve o suficiente para fingir que nadava pela janelinha da sala de aula dele. Desde aquele dia, quando levei uma bronca disfarçada de brincadeira, encaixei Martinho na primeira categoria. E não fui a única, pelo que pude ver no Orkut dele, onde gente muito mais nova e muito mais velha do que eu deixam há anos recados contando suas novidades, agradecendo os desejos de Feliz Aniversário que ele oferecia e simplesmente avisando que sentiam saudades daquele que, certamente, iria trabalhar de havaianas, se o colégio permitisse.
Eu poderia usar aqui todos os superlativos do mundo para medir a altura de Martinho. Não há girafa ou torre altas o suficiente para competir com esse arranha-céu humano. De tão alto, Martinho acabou raspando a cabeça no céu. Talvez o enfarto fulminante que o vitimou ontem torne escassos os recados em seu Orkut. Mas 27 anos de classes bem dadas o manterão vivo por várias gerações.
“Pessoal, vamos fazer mais silêncio na aula, por favor? Porque senão vocês vão acordar a Aninha…”
