Publicado originalmente no Blog das 30 pessoas

Vivo longe de todos os meus melhores amigos. Já estou acostumada, faz parte do meu show, tenho muito talento para o cargo de amiga à distância. Mas não tenho medo de admitir que sinto falta das músicas que me ajudavam a dormir nas madrugadas insones pré-formatura. Dos almoços com suco de limão com rosa seguido de um filme aos sábados, dos abraços coletivos na hora do gol no estádio, do cafuné feito com as pontas dos dedos no ponto mais alto da testa. De fazer o ridículo e se divertir mais do que ninguém nas aulas de Badminton, das intermináveis partidas de Literati, dos torneios de Tetrinet, de fazer as palavras cruzadas a quatro mãos e dividir o Danette ao som de Pat Metheny. De passar as tardes escutando a Rádio Mix enquanto estudamos química, afogar os sonhos mortos em suco de amarelo no bandejão do Coseas e depois ver as nuvens passarem por cima da Torre do Relógio. De adotar as gírias alheias e recontar as mesmas histórias, brigar para que o Estatuto esteja 100% correto, não importa o cansaço dos envolvidos, e o Manual não tenha nenhum erro ortográfico.

Amanhã você entra nessa lista. Graças à sua partida, a média de altura do grupo de amigos distantes vai subir, é você é o primeiro sócio masculino desse clube que tem mãos pequenas o suficiente para entrar nas minhas luvas sem rasgá-las. Sempre são bem-vindos os integrantes que usam óculos, preferem o Desmond, dançam como se ninguém estivesse olhando e não perdem a compostura depois de beber, porque não precisam de ajuda para praticar a sinceridade.

Da próxima vez que eu fizer um resumo como o do primeiro parágrafo, mencionarei a saudade de ganhar sempre no quebra-cabeça e perder sempre no campo minado, ou a falta que me faz engasgar com a mistura da ventania, a paisagem alucinante e a companhia de alguém que se ofereceu para estar ali tomando vento de graça. Omitirei seu nome e te citarei apenas como “um amigo espanhol”.

Se me pedirem para detalhar um pouco mais, talvez eu lhes diga que nos demos muito bem porque compartilhamos a mesma visão de mundo, apesar de que a maneira como aplicamos essa filosofia na prática é diametralmente oposta. E que ajudou consideravelmente o fato de que desde o início só poderíamos ser amigos. E que era um momento em que me faltava ter por perto essa visão de mundo parecida. E que poderíamos ter tido o triplo do tempo, não fosse pela minha mania de começar as coisas e deixá-las pela metade, mas que isso não importa porque se eu não fosse caótica talvez não fôssemos amigos.

Pode ser que eu lhes conte sobre como ontem falávamos sobre mais uma das nossas muitas diferenças. Você não gosta de quase ninguém e eu gosto de quase todo mundo. Você desviou o olhar e fez aquela cara séria que deixa teu rosto ainda mais esguio e destaca teus óculos de armação preta e grossa. E então pairou uma pausa dramática, à qual contribuí porque preciso de tempo para entender o teu espanhol prolífico e em baixo tom. Também costumo esperar para ver se um dos cantos da tua boca vai se encolher e revelar a ironia que vive na ponta da tua língua e corta seis cabeças de quase todos os bichos.

Mas vão dizer que é amor, isso de ficar falando sobre os cantos da tua boca, a cor dos teus óculos e o teu vocabulário. E eu vou ter que dizer, mais uma vez, que não, não é amor. Mas eu não gosto de mentir, e eu sei que sim, é amor. Mas amor de amigo. O problema é que ninguém se interessa por amor de amigo, platônico, simples e natural. Esse tipo de amor não esgota a bilheteria, não entope a caixa de comentários e não sobrevive muito tempo às fofocas do almoço de domingo. Todo mundo quer emoção, intriga, histórias épicas, braços ao ar e vozes alteradas.

Mas nem tudo na vida precisa lembrar uma novela. Às vezes é bom se contentar com pouco. Quando o pouco basta, o pouco vira muito. E mais não poderia pedir.

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Descobri hoje que a cor da pele e o roxo produzem um degradê fascinante nos nós dos meus dedos da mão. Basta que eu esqueça as luvas em casa.

Não, não foi assim que começou a história. Eu as deixei em casa propositalmente. Trata-se do par “oficial” de luvas de lã cinza, de mangas compridas que chegavam até o cotovelo e furos para que os dedos ficassem unidos*. Comprei-as ano passado e resolviam minha obsessão tola por blusas e jaquetas que não alcançavam meus pulsos.

Mas hoje decidi deixá-las em casa, e apenas cogitei levar o par de luvas do camelô**, mais fáceis de manusear.

Fui confiante na minha posição de veterana. Levava o segundo inverno na flauta, em comparação com o primeiro. Há poucos dias me dei conta de que já era março, estava na rua sem gorro e sem luvas e não tiritava.

Ignorei que isso havia sido há poucos dias, quando os graus Celsius estavam por aqui em dúzia, e hoje metade deles havia sido levado pelo vento para longe da Calle Barcelona, onde fui para tirar fotos da intervenção feminista da rua dos imigrantes. O segundo destino só se podia alcançar a pé. E só lá parei para ver as minhas mão. Os dedos, Roxo 5 graus. Contraste com o esmalte Vermelho 40 graus.

Claro que, como veterana, também havia abolido o combinando calça-dupla. Nada como meia hora no ponto de ônibus para que os joelhos comecem a dançar por conta própria.

O corpo agüentou como pôde. Cheguei em casa faminta e só mesmo o radiador para derreter o gelo do lado de fora. Pensei em várias metáforas para explicar o gelo do lado de dentro e criar um post digno desse blog. Mas do lado de dentro a temperatura está confortável, o clima está ameno, a vida vai bem.

*Aprendi no Canadá que o calor do próprio corpo é mais eficaz que o de membros envoltos só em lã, e por isso as luvas que deixam os dedos juntos esquentam mais.
**Aprendi no Canadá que lá elas são inúteis.

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–1–
Dedico a ti o primeiro parágrafo não por seres tu meu preferido. Não és. Mas teus lábios mornos que odiavam beijar-me e teus dedos frios que rechaçavam tocar-me me ofereceram quase meio ano de uma liberdade que só experimentarei de novo se um dia encontrar outro tu. Já sabemos que é único o conjunto de 56 pintas, músculos magros, apito, bloco de notas, quepe de piloto e roupa de adolescente que formas com um muro intransponível ao redor. Por isso te escrevo esse recado, o primeiro, como agradecimento.

–2–
Levo-te do lado de fora no pulso esquerdo e do lado de dentro no coração. Tua companhia me enche de tudo o que eu preciso quando preciso, mas sei que a reciprocidade não te é suficiente. Difícil entender porque parece que nossos diálogos estão em algum roteiro escondido atrás dos espelhos. E me recuso a chegar a uma conclusão por minha conta. Me ajudas?

–3–
Nossa sinceridade é mais especial que todas as coincidências que nos aproximam. Queria ter demorado menos entre conhecer-te e te conhecer, mas o passado e o futuro são palavras vazias agora.

–4–
Pela primeira vez, você é a porta e eu sou o muro. Mas, além da maçaneta sem chaves nem trancas, seu olho é mágico. Que ele não se transforme em binóculo.

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Perdi a contagem de quantos dias passaram desde que voltei à minha casa. Quando entrei nela disse –Mi casita!, mas suspeito que fui organicamente inclinada a dizê-lo porque estava acompanhada, assim como já sou organicamente programada para acentuar a palavra “orgânicamente” porque os substantivos e seus derivados não me soam mais como palavras distintas, e sim como variações da mesma que, se tem acento proparoxítono, não perde nem quanto a sílaba tônica deixa de ser a antepenúltima. Esdrúxulo, eu sei, mas aqui onde eu moro é assim.

Bem, isso não é totalmente verdade. Estivesse eu sozinha, teria dito o mesmo, mesmo que mentalmente. E então sorriria pensando em como a frase soara vazia. Porque passei um mês dizendo o mesmo da minha outra casa, ainda que, dentro dela, eu escondia a palavra “outra” para não revelar meus costumes pouco monogâmicos. No momento em que pisei ali parecia que nunca tinha saído, e que os treze meses anteriores tinham sido apenas um sonho.

Eu usaria a palavra bigamia, mas estou certa de que magoaria mais de uma amante. Porque eu já me senti assim antes e só não digo que a experiência foi idêntica porque daquela vez eu disse –My home!, e dessa última o sonho foi bem conturbado.

E então uma enchente muito mais forte do que a que periodicamente me converte em desabrigada arrancou a casa muita gente, mas eles se preocupavam mais com sua família que foi arrastada junto. Porque sem uma dessas não há lar. E estamos todos tentando minimizar a necessidade física para que o lar possa ser reconstruído de dentro para fora por quem sabe muito bem onde quer chegar. É claro que paredes, teto e microondas são itens secundários e então olhei os meus iguais e disse –Minha casinha! e pelo menos soube a minha origem, o que dizem ser o primeiro passo para se aproximar do destino.

Aí chegou a hora da separação e a intuição de que dizem um monte de coisa vazia. Ela foi breve e desprendida como sempre. Quando olhei para trás ninguém encontrou meus olhos e eu sorri de novo porque isso de achar que a casa da gente está em algum lugar é mesmo uma tolice, para não dizer perda de tempo, caso a gente insista em sair procurando esse lugar pelo mundo.

Ele não existe e quem diz que o encontrou deveria guardar esse segredo em silêncio, para poupar o resto de nós da crueldade de já ter o mapa rasgando de tanto abrir, virar, fechar, anotar, levar para bem perto dos olhos, dobrar e ainda guardar no bolso de novo, caso ele se torne necessário.

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Na sala, cortinas cor salmão que acumularam pó durante um semestre, enquanto esse apartamento de esquina esperasse para dividir o papel do contrato com o número do meu passaporte. Cadeiras desconfortáveis, uma mesa de centro que não combina com a de jantar e um lustre horroroso, mas digno do Palácio de Versailles quando comparado ao do quarto.

O colchão é mais duro que tijolo e não sei como podem as formigas subirem dezessete andares por dentro das paredes até chegar à cozinha. Mas o banheiro está sempre tão limpo que me sinto em Hogwarts. Uma Hermione provocada pela umidade trópica que se enreda nos meus cabelos assimétricos e, agora, anti-gravitacionais.

Durmo só com um lençol e sem meias em cima do colchão sem cama. Passo a noite toda presa naquele limite entre o frio e o conforto e acabo sonhando com narrações machadianas sobre a morte em vida até que a manhã me traz o salvo-conduto para vestir sapatos e uma blusa.

Minhas costas doem eternamente porque as malas são sempre mais pesadas do que deveriam. Um cachecol extra, uma troca de roupa de emergência, o presente coringa e um par de tênis caso o pé reclame em forma de bolha. Todos itens inúteis, porque cachecol só é preciso um, as peças de roupa não combinam entre si, o presente derrete esquecido dentro de um bolso e não há tênis que cale uma bolha bem formada.

Me enfiam em um ônibus, um carro, um bar, um avião, outro avião e perco a minha bússola. E então corro para voar sem saber aonde vou. Avisaria quando eu volto, mas não sei de onde saí. Meu laptop não quer conhecer mais novas redes sem fio e definitivamente não nasceu para o cabo encapado em azul.

Estamos eu e ele fartos dessa condição, mas cientes da inexistência de alternativas. Assim como os brasileiros não têm alternativa à desigualdade e os espanhóis não podem fugir do desemprego, nós também seguiremos carregando a casa nas costas. Nos três casos, a solução demanda subverter o sistema e, convenhamos, nenhum de nós tem coragem para tanto.

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Um vascaíno me beijou a força na porta de uma boate de Belo Horizonte. Ele fingiu ser meu amigo o dia inteiro e, quando eu ia embora de uma festa onde fomos todos, não me deixou entrar no táxi com meus amigos enquanto eu não desse um beijo nele. Resisti por dez minutos, mas tive que ceder porque meus amigos, um menino e uma menina que observavam tudo, me apressavam para entrar no táxi. Agiram com tanta naturalidade que eu fui obrigada a disfarçar o enorme sentimento de humilhação que por muitos anos parecia infinito. Ele depois fez amizade com a minha irmã mais nova e nunca perdeu a oportunidade de ser falsamente educado e amigável comigo, só para ver como eu reagiria. Éramos todos estudantes de colégios jesuítas da região sudeste do Brasil e participávamos do “churrasco em BH”, um evento anual que reunia os estudantes de primeiro, segundo e terceiro colegial que participavam dos retiros espirituais promovidos pelos colégios durante a Semana Santa.

Instituíram um belo dia que nas aulas de sábado os alunos do segundo colegial os estudantes poderiam ir ao colégio sem uniforme. Uma revolução dentro daquela quadra na Avenida Paulista cheia de grades cinzas, santos empoeirados e aula de matemática em pleno fim de semana. Minha tia que vive nos Estados Unidos tinha vindo ao Brasil e me trouxe um par de tênis Adidas. Era lindo. Azul marinho. E um número menor que o meu pé. Isso não me impediria de aparecer na primeira aula de matemática livre das calças de moletom e camisa polo com o meu novo tênis legitimamente importado. Vesti uma calça legging azul marinho, meias brancas de corrida, uma camisa da Polo Sport que outra tia me havia dado e, para domar o meu cabelo, fiz duas trancinhas na franja que crescia, uma em cada lado da cabeça. Eu, que tinha passado o primeiro colegial no Pueri Domus e sendo importunada diariamente por não ser rica, patricinha ou precisar pedir cola durante a prova, parecia um típico exemplar da espécie que freqüentava a Rua Jacurici, no Itaim. Só que na Rua Haddock Lobo, a coisa era diferente. Uma menina do terceiro colegial me viu na entrada e desatou a rir. No intervalo, desceu no meu andar para usar mais vezes a palavra “baiana”. Chegou a hora do recreio e ela me pegou na escada para continuar a esbaldar-se com as minhas trancinhas. Eu não era tão eloqüente naquela época (vide episódio do vascaíno acima) e agüentei por um bom tempo até que me veio um estalo e eu disse: “escuta, cada um é livre para usar a roupa que quiser, ainda mais quando nem o uniforme é obrigatório aos sábados. que tal se você for passar o recreio com as suas amigas e me deixar em paz, porque eu não vou tirar essas tranças, não importa o que você diga, porque você não decide o que é feio e o que é bonito”. Ela, que até era legal, tenho que dar o braço a torcer, disse: “pois é, tem razão, faz o que você quiser”.

Quando tinha 17 anos, fui importunada pela Internet, durante dois anos, por um americano maior de idade. Ele queria que eu o enviasse uma foto minha nua para ele. Ele era o desenvolvedor de um programa de mensagem instantânea + games que vocês nunca ouviram falar. Ali se reunia um grupo de pessoas de tudo quanto era canto do planeta quando webcam era um trambolho caro e a minha internet fazia um barulho horrível durante vários segundos antes de abrir meu ICQ com a velocidade de uma lesma. Foi lá que eu desenvolvi meu inglês, o meu gosto pelo webdesign e pelo Tetrinet. Havia muitos canadenses, eu estava me preparando pra passar um ano lá realizando meu sonho de fazer intercâmbio e queria descobrir tudo sobre o país. Meu fichário no colégio estava todo pichado com a palavra CANADÁ e meu professor de física me deu um choque de verdade um dia pra ver se eu acordava pra vida. Quando eu já vivia no Canadá, e só tinha uma hora por semana para usar a Internet, este homem ainda assim me atazanava para conseguir a foto. Um dia, achei uma foto de uma menina com os peitos de fora e a cara cortada do quadro. Ela era morena que nem eu e então fiz charme durante dois dias para fingir que havia tirado uma foto mas não tinha coragem de enviar, e então enviei pra ele. Ele nunca mais falou comigo.

Lá no Canadá, eu descobri que, quando eu falava que preferia o frio ao calor, é porque eu não sabia o que exatamente era frio. Se há uma única coisa que eu queria ensinar aos outros depois das minhas andanças é que 15 graus é CALOR. E em algumas culturas, as amizades não superam a temperatura negativa. No meu segundo semestre como estudante do colegial canadense, fui abençoada com o status de única menina na aula de Educação Física. Além do colírio grátis três vezes por semana, eu ainda tinha o privilégio de correr menos e jogar futebol americano como café-com-leite. Meu amigo Danny, um menino magro e espichado que quase nunca falava, mas tinha uma simpatia tremenda, aprendeu rápido que, no Brasil, contato físico não era sinônimo de atração física. Todos os dias depois da aula ele deixava que eu lhe desse um grande abraço para esquentar um pouco o meu dia. O melhor amigo do Danny, o Tyler, começou a espalhar para todos que eu estava apaixonada pelo Danny. Gastei muita saliva tentando explicar para um irredutível Tyler que abraço é uma expressão de amizade. Até que me cansei. Quando chegou o verão, tivemos um torneio de golfe. Cheguei exausta ao salão para ver os resultados e sentei em uma cadeira no meio do recinto. Dez minutos depois chega o Tyler, também exausto. Me vê no meio do salão, caminha diretamente na minha direção e me dá o abraço mais inesquecível da minha vida.

Meu primeiro celular quem me deu foi meu primeiro namorado. Ele arranjou um usado do amigo dele e me deu porque não suportava não saber onde eu estava durante o dia. Nos primeiros seis meses de namoro não passávamos dois dias sem nos ver. Telefone diariamente. Comprei um carro. Ele ficou com ciúmes porque eu não precisaria mais das suas caronas para ir à faculdade. Quando fizemos três meses juntos, eu, que já sabia que queria estudar fora de novo, estava pensando em me inscrever para uma bolsa de estudos de um ano nos EUA, que começaria treze meses depois da inscrição. Ponderei ponderei e por fim decidi não optar por aquela bolsa porque o curso não era tão interessante, meu emprego não era tão ruim, ainda tinha prestações do carro para pagar e, vá lá, eu tinha um namorado gente fina que poderia durar. [acompanhe com atenção a próxima frase porque ela é tão absurda quanto verdadeira] Antes de tomar essa decisão, ele me disse que a psicóloga dele havia dito que aquele meu projeto de talvez viajar era a pior coisa que poderia acontecer para ele naquele momento. Quando eu anunciei que renunciaria à seleção para a tal da bolsa, só revelei pra ele os outros motivos, porque achei que ninguém gostaria de ser culpado por acabar com planos de alguém que sempre teve planos assim. Ele, é claro, ficou bravo por não ser citado como razão para que eu abdicasse do meu sonho. Dez meses depois, ou seja, três meses antes de data onde eu possivelmente poderia estar embarcando, eu me cansei do abuso psicológico e terminei com ele. Depois de sete meses fazendo tudo o que ele queria, decidi tentar conseguir algum espaço na nossa relação para coisas que eu queria fazer. Foi então que começamos a brigar. Ele se enfezava, virava as costas, batia a porta e sumia até o dia seguinte, quando tudo havia sido magicamente apagado pelo brilho do luar. Certa vez, me dei um ultimato e me proibi de aceitar tal comportamento. Que se repetiu, como aconteceria com qualquer pessoa acostumada a ter tudo o que quer. No dia seguinte, quem deu com a cara na porta foi ele, e foi nesse momento que eu descobri um significado para a palavra liberdade que nunca me haviam ens
inado antes. Talvez tenha a ver com o que sentia Tiradentes ou os franceses que derrubaram a Bastilha nas aulas de História, mas não há texto que o Hobsbawn possa escrever que te esclareça tão bem quanto sentir o cheiro da liberdade no vento.

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A garoa do lado de fora só consigo perceber em um persistente pedaço do toldo, de onde caem duas gotas a cada tantos segundos. Daquelas gotas gordas que vão se acumulando até pesar o suficiente para desafiar a gravidade, a minha lei favorita da Física. A rota, brevíssima, só tem um rumo: a calçada de mosaico português. De repente me surpreendo com o tamanho da redundância. Que outro tipo de mosaico se espera encontrar em Lisboa?

Do lado de dentro o teto segue seco e um casal multinacional mantém uma conversa daquelas que parece ter começado muito tempo antes de pedir o cardápio do almoço, e que, mesmo com as xícaras de café vazias e o cinzeiro cheio, não deve nem ter chegado à metade. Ele fala inglês britânico. Ela responde em francês com sotaque, e às vezes eles trocam de idioma. Com o garçom, usam o português básico para turistas: “Eu querrro um café.”

Eu quero comer muito, mas sei que só comerei o que devo. Demoro alguns eternos minutos subtraindo o que está na minha carteira pelas cifras no papel e imaginando se, no restaurante Fonte dos Passarinhos, me entenderiam se eu pedisse o combinado de peixe, sem o peixe.

O garçom me explica que a <span style=”font-style:italic;”>omeleta</span> é suficiente para uma pessoa e a salada também é farta. Deve pensar que eu como igual passarinho, o que não só inspira qualquer piada sem graça sobre o nome do local, mas explicaria também a minha menos engraçada fome, agora que o prato se esvaziou.

Ali fora, a Penélope Cruz acaba de passar, em versão gigante, estampada nas laterais de um <span style=”font-style:italic;”>elétrico</span>. Aqui dentro, o canal Sport-TV1 transmite ao vivo a brava resistência do Arsenal, agüentando a pressão do Tottenham Hotspur na casa do inimigo, com um homem a menos desde o final do primeiro tempo. A partida segue sem <span style=”font-style:italic;”>golos</span>.

Meu garçom não tem tempo de ver o jogo. Está ocupando vestindo calça social preta e camisa de botões branca, com finas listras horizontais cinzas e verticais vermelhas. Dobrou as mangas para revelar metade do antebraço sem relógio. Dois botões se recusaram a entrar nas respectivas casas.

Quero me casar com ele. A pele clara da sua nuca ressalta algumas pintas desenhadas a esmo abaixo dos cabelos fartos e escuros. Pelo rosto, apenas três: duas no lado esquerdo do queixo, uma acima do osso da bochecha. Vizinha do nariz com canto fino e ponta larga e colega dos olhos negros que se espremem quando sorri. Desliza pelas mesas, aparece sem avisar pelo meu lado direito e exerce tanta autoridade sobre os copos na prateleira que eles parecem já saber onde ir, sem que precisem ser tocados.

Nosso casamento está ameaçado. Seus sonhos ultrapassam as paredes do Fonte de Passarinhos. Fala com o casal trilíngüe sobre a vontade de visitar Viena e Praga. Pede dicas sobre cervejas brasileiras e escuta que o ouvi verde e amarelo não é bom. Recebe outro cliente regular repetindo o popular “yes, we can” e contando histórias sobre sua viagem de alguns dias aos Estados Unidos. Endireita as costas para inspirar melhor enquanto se lembra dos detalhes. Apóia o peso do corpo na perna direita e olha para fora do restaurante, onde a chuva já foi e voltou três vezes e a goteira mantém o exato comportamento de alguns parágrafos atrás.

Talvez esse romance dê certo. Ele busca um horizonte com a mente, mas só vê uma praça onde várias pessoas esperam chegar o <span style=”font-style:italic;”>autocarro</span>. No Jornal de Notícias, a “reportagem de domingo” ocupa as páginas 4 e 5 com depoimentos de portugueses emigrantes. Querem deixar a Península Ibérica para morar em Luanda, onde o salário é três vezes maior e há tanta procura que a lei angolana permite apenas uma cota de um terço de funcionários estrangeiros por empresa. O repórter avisa que só sobrevive à aventura quem abandona os “saudosismos e paternalismos” na velha metrópole e aceita “trabalhar muito” para enfrentar a concorrência de chineses e brasileiros. Estão redescobrindo o mundo, dessa vez sem caravelas.

Mas aqui na Fonte dos Passarinhos, onde meu marido fará carreira e eu comerei o <span style=”font-style:italic;”>pequeno almoço</span> todos os domingos, não há crise. Não se fala em desemprego, embora eu entenda pouco o idioma falado, cheio de expressões mais próximas ao espanhol que ao tal <span style=”font-style:italic;”>brasileiro</span> a que se referem constantemente quando citam a língua que eu falo.

Em cinco minutos completarei 24 horas vivendo em Portugal. Amanhã, serei novamente residente da <span style=”font-style:italic;”>Galiza</span>. Mas tenho vontade de dizer ao garçom que já conheço muitos países do mundo e que ele pode ficar tranqüilo. Porque não há lugar melhor que esta cidade bagunçada, com calçadas em mosaico encravado no asfalto, edifícios antigos e descuidados, mas lindíssimos com suas fachadas cobertas de azulejos. De todas as cores e formas. Que, se ele quisesse, eu viveria aqui, em um desses edifícios. Comeria rabanada e pastel de nata, aprenderia a fazer <span style=”font-style:italic;”>pataniscas</span> e passearia com ele pelo teleférico no Beiratejo, onde veríamos o entardecer mudar as cores do céu.