Só porque eu estava devendo:
Algum dia aí, acho que foi uma quinta, eu bati meu carro na Praça Panamericana indo pra USP. Tinha acabado de sair do Sou da Paz depois de uma big discussão sobre discriminação com um dos meninos de lá. Tava morrendo de raiva não da discussão e nem dele, porque ele é um cara super bacana e a gente se trata normalmente e tá tudo bem, mas porque, depois dessa discussão e do episódio do cartaz (outra novela, mas essa fica pra depois), senti na pele o quanto a nossa sociedade é sim machista a começar por mim e por você, nobre leitor que caiu nessa página por algum motivo que não interessa. E nossa sociedade vai continuar sendo machista enquanto todas as mulheres – e os homens também, mas principalmente as mulheres, que são as únicas que vão conseguir conquistas seus próprios direitos – não levantarem a voz e, ainda que não consigam argumentar eficazmente, chamar a atenção praquela injustiça que encontrou na sua frente.
A regra tem que ser uma para todos, senão me recuso a segui-la.
Andando apressadamente sentindo em tudo isso que acabei de falar, só que sem o raciocínio que usei para escrever, coloquei o meu CD “nobody said it was easy, but no one ever said it would be so hard” altamente apropriado para estas horas e fui, atrasada como sempre, pra aula.
Já no piloto automático, estava na rua que dava na Praça e avancei um pouco pra me preparar pra entrar depois que o ônibus passasse, mas a menina que estava na minha frente ficou parada por algum motivo (porque se fosse eu, já teria entrado antes de o ônibus passar porque pra ela dava tempo). Depois do barulhão paramos e vimos a merda que deu.
Encurtando a história que não é nada elogiosa à minha desligada pessoa, a dona do carro batido é uma menina que se chama Luciana, estava aniversariando no dia seguinte à nossa batida, fazia Geografia na FFLCH e provavelmente não tinha pago um centavo pelo Renault Clio que os pais – separados, pelo que apurei – compraram pra ela. Não que o fato de eu ter pago o meu carro não implica que o emprego que eu consegui não tenha sido fruto do puta trabalho que os meus pais tiveram pra bancar a minha educação, e se eles ainda tivessem dinheiro sobrando não teriam comprado um carro pra mim.
Especulações à parte, ela foi muito mais educada e compreensiva do que eu seria – provavelmente creditaria a “tragédia” de um bendito bater na minha traseira como mais um obstáculo que o destino colocara frente à minha crusada épica de 2005. Por isso ela mereceu que eu dedicasse o parágrafo acima à ela.
No fim, eu vou ter que bancar o meu conserto e o meu seguro vai ter que pagar o dela, já que eu dei todos os testemunhos pedidos de que a culpa foi sim toda minha.
E a teoria do videogame fica pra depois porque eu me deparei com ela hoje e ela quase me deu um game over, então desliguei a tv e vou descansar os olhos e o cérebro um pouco…