Carolina, com seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo este mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar
Seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar
É hora já sei de aproveitar
Lá fora, amor
Uma rosa nasceu, Todo mundo sambou
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei, sorrindo
Pela janela ai que lindo
Mas só Carolina não viu

Carolina, nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que ja nao existe
Eu bem que avisei, vai acabar
E de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei para agradar
Agora não sei como explicar
Lá fora, amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei, a ela
O tempo passou na janela
E só Carolina não viu
Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
So Carolina nao viu

Sunita Williams passou 195 dias sem pisar na grama.
Distante milhões de quilômetros da própria cama.

Viu a Terra girar,
brincou de surfar no ar,
nem água conseguiu derramar.

Na Estação Espacial, viveu com dois russos
mas comeu cardápio francês de luxo
quando o turista ianque fez uma visita.

Codorna assada, arroz doce, purê de batata.
No resto do tempo, comida pré-fabricada.

Pilotava o fogão enquanto os russos faziam a funilaria da base
e assim bateu o recorde feminino de permanência no espaço.

I.

- Não parem nunca. Não pode ser só hoje. Tem que ser sempre.

O homem magro e grisalho, de gravata azul e camisa branca, interrompe o casal que se aninhava num canto do restaurante para explicar que não precisavam interromper o momento. Tira o paletó, acende um cigarro, senta duas mesas ao lado, de costas para os dois.
Ela enrosca o braço esquerdo atrás do pescoço dele e aproveita a posição para esconder a reação à palavra “hoje”. Como não parar se aquele era o último dia? Se aquela era a última hora? Ela pensa em responder ao profeta sentado duas mesas ao lado que nem todas as previsões precisam ser expostas sem pudor daquele jeito.


Prefere virar o rosto e observar, por trás daquela nuca que já dava saudades, os detalhes do famoso restaurante, que a partir daquele dia seria apenas mais um dos já incontáveis pedaços da cidade impregnados na memória recente. Adota como favoritas as pequenas peças redondas de porcelana com detalhes em azul, entalhadas no piso de blocos quadrados de cor marrom claro, e as cadeiras com assento de palha que apareciam aqui e ali, em meio à maioria de cadeiras de madeira sólida.
Ele senta de frente para a janela alternando o apoio das mãos entre o próprio colo e a perna dela. Deixa metade do copo de suco de laranja com mamão para beber na hora de ir embora, e ainda belisca seu pão de queijo, que já havia esfriado, do jeito que ele gosta. Evita tomar café quando sai com ela depois de descobrir que ela não gosta dos grãos. Mantém-se quieto enquanto deixa que ela brinque com sua nuca, e é o último a reconhecer a entrada do profeta.
Tampouco percebe que ela já tinha se partido no meio. Era agora uma sombra da fortaleza que ele conheceu meses antes. Acha que ela escondeu o rosto em repúdio a qualquer denotação de romantismo nas proféticas palavras do grisalho, e não percebeu que o fraco sorriso escondia a sensação melancólica ainda crescente.
Ela tenta segurar sua melancolia com comida. Atira-se no suco de laranja sem mamão e não pára até escutar o familar barulho de ar que se infiltra no canudo. Aproveita que ele acabou o pão de queijo e dá o seu para ele morder. Volta então sua atenção para o ombro quenta que tantas vezes procurou atrás de consolo. Rende-se à lembrança de que dificilmente encontraria aquele ombro naquele restaurante de novo.
Junto com os outros pedaços humanos, o ombro tinha passagem marcada para o outro lado do oceano em dois dias. Esse é o último que o corpo dela teria para encostar no dele. E começar essa frase em pensamento é o bastante para não querer encerrá-la. De que adianta uma hora, dois dias? Admite, afinal, que nada mais seria suficiente.
Ele pede a conta. Ela pergunta se pode pagar, mesmo já sabendo que a resposta seria afirmativa. Quando se levantam para sair, ela percebe que o profeta já foi embora. Só restou a fumaça do cigarro no cinzeiro.

II.

- Pelo menos você não está indo para a guerra.

Ela mira os olhos diretamente no rosto dele. Redondo, de pele clara e macia, contornado pelo contraste escuro do cabelo e barba rentes, que formam a moldura perfeita do quadro impressionista revelado nos olhos castanhos mais brilhantes de qualquer recinto. Reluzem atrás dos óculos de aro fino que repousam no largo nariz. Os lábios semi-finos e semi-turvos não esboçam reação no primeiro momento, mas depois relaxam.
Ela já tinha o costume de repetir aquela frase para si mesma, para se lembrar do exagero daquela melancolia, mas diz para ele pela primeira vez dentro do metrô em movimento. O trem, e eles, estão a caminho do ponto final.
Ocupando os dois assentos ao lado da porta esquerda, de costas para a parede do carro, eles se encostam com pernas, troncos, braços e cabeças. Aproveitam porque, enquanto andam, só conseguem aproximar poucas partes do corpo.
Ele prefere usar os lábios para lhe dar um beijo, em vez de responder. Ela apenas explica, em seguida, que as coisas não são tão sérias assim, que as coisas são do jeito que devem ser, e ele sinaliza com a cabeça que já sabe de tudo isso.
Da última hora, restam os últimos minutos. Ela pensa, consigo mesma, que eles tinham que chegar eventualmente, mas a única coisa que pensa em dizer é que tudo vai ficar bem. Opta pelo silêncio. Ele também não revela o que pensa. Ela não quer saber. Usa os últimos minutos da viagem para lembrar das outras vezes em que se sentou ao lado dele.

Em cima de uma mesa na calçada durante a madrugada congelante do outono, quando desconfiou de que ele era incompreensivelmente diferente.

No banco de concreto da praça da periferia na noite fria de inverno, quando descobriu que ele era extremamente educado.

Na grama do parque no fim de tarde morno, quando experimentou o quanto era ela calorosamente confortante.

Em outro banco de concreto em outra praça, quando se convenceu de que ele era respeitosamente carinhoso.

Nas cadeiras da cozinha dele, quando percebeu que ele era cativantemente desinibido.

No sofá do prédio dela, quando viu que ele era surpreendentemente estimulante.

Dentro da antiga maria-fumaça, quando sentiu na pele que ele era sensivelmente delicado.

Não demorou para ser forçada a admitir que ele era inexplicavelmente irresistível.

III.

- Você vira e vai por lá.
- E você vira e vai pra lá.

Ela ouve a resposta dele e, como ele concorda, o beija mais uma vez, vira as costas e começa a andar. Depois dos três primeiros passos, respira, aperta o ritmo e fecha os olhos para espantar a lágrima. Fracassa, mas não olha para trás. Atravessa a catraca e pensa em sair correndo, mas não acelera as passadas e apenas pensa em não vira a cabeça. Aposta a pulseira de corda preta no braço direito que ele ainda está lá. Mas não é forte o suficiente para enfrentar o mesmo fim mais de uma vez.