Fiz uma coisa terrível hoje. Me tornei o tipo de pessoa que mais desprezo no mundo. Eu traí. Joguei pela janela o relacionamento mais sólido, duradouro, verdadeiro e sincero da minha vida.
Comemoramos mais de uma década de união. Esse último verbo está no presente, viu? Porque ainda não admiti a traição, e ainda não sei se serei perdoada. Acredito sim que descumprir um compromisso é falha de caráter, mas passível de perdão.
Em minha defesa, só posso dizer que não planejei tamanha prova de desrespeito e, tampouco, que não tive meus motivos. Sim, porque precisar da pessoa amada, ligar para ela e não receber resposta, e depois ir até ela e encontrar a porta trancada na sua cara, num momento de desespero, pode abalar os princípios de qualquer um. E isso eu, que tenho nos meus princípios a fonte de todas as minhas crenças, aprendi isso hoje de manhã.
Valeu a pena? Em partes. Fiz o que tive que fazer em uma hora de extrema dificuldade. Foi uma questão de sobrevivência. Encontrei a primeira alternativa disponível. Não prestei atenção na aparência, só queria a satisfação imediata das minhas necessidades. Estava abandonada e agarrei o único sinal de atenção.
Mas não foi bom. A lasagna foi, aliás, muito pior que o arroz e feijão ao qual eu já me acostumei depois de tantos anos de convivência regular. Já nos conhecíamos, nunca ficávamos sem papo, não tinha vergonha de me despir na frente dela ou de mostrar o que ninguém mais, além do meu ginecologista, já viu. Os cerca de 15 minutos de atenção integral eram suficientes para garantir alívio e felicidade que chegavam a durar um mês. Quando morei um ano no Canadá, nem dos meus pais senti tanta saudade.
Ontem, o pulo da cerca durou uma hora. No começo, torcia para nenhum avião cair na cidade, para não ter que sair na metade da traição – se já estava lá, tinha que até o final, pensei. Mas, quando vi que o meu erro era maior do que imaginava, comecei a enviar sinais telepáticos para alguém me telefonar. Não desejei mais uma tragédia urbana, claro, mas qualquer blitz ou protesto de camelôs para me salvar daquela situação desagradável.
Subitamente, lembrei-me da última vez que havia pulado a cerca. Ok, eu admito, essa não foi a primeira, mas a outra foi no exterior, não durou nada e, francamente, foi mais uma questão cultural, um intercâmbio.
Claro, hoje os cremes ajudaram bastante a aliviar meu martírio, mas durante os últimos 20 minutos só queria mesmo era ir para casa e resolver o problema com minhas próprias mãos. Eu sou mesmo impaciente em todos os cantos da casa, em todas as horas do dia, em todos os dias da semana. Por fim, não resisti e perguntei: “vai demorar muito?” Minha parceira no crime, que antes se gabava por eu tê-la escolhido em detrimento da minha sólida relação, percebeu o meu arrependimento e, na saída, enquanto eu pagava a conta – a única coisa exatamente igual entra a oficial e a amante – ela me pediu desculpas.
“Imagine”, disse eu. Sim, sou traidora, mas não vou fugir das conseqüências. A culpa foi toda minha, e hoje eu aprendi que depiladora não é que nem homem na balada. Não são todas iguais.
PS: Cida, se você estiver lendo esse blog, me perdoa por favor!

