Há quatro dias não sinto nada além de frio.

No primeiro dia, culpei a meteorologista da tevê por explicar que “a frente subtropical, ao contrário da frente fria, traz chuva, mas não derruba a temperatura”.

No segundo, me irritei com o sol que saiu no início da manhã e se escondeu durante o resto do dia. Aquele dissimulado.

Ontem, foi o ar-condicionado o grande responsável por levantar os pêlos do meu braço e, hoje, o ciclo deve voltar para a moça do tempo.

Resolvi dar mais uma chance ao mapa que só tinha cores amarelas nas linhas em cima de São Paulo, já que ela garantiu que a temperatura vai subir.

São 9h16, cedo demais para levantar suspeitas.

Lamentavelmente, nós dois sabemos bem que tudo isso não passa de uma tentativa de fuga do verdadeiro problema. Admitir que o inverno que me ronda na verdade vive dentro de mim, e que ele foi semeado e regado pela sua ausência, é conceder uma derrota.

Nesse ano, a primavera chegou mais cedo na minha vida. Chegou com muitos anos de atraso.

Ainda vestia cachecol e uma coleção de gorros coloridos quando o seu ombro esquerdo e uma caneca azul de chocolate quente engrossado com aveia encostaram em mim. Foi o começo do degelo. Você se recusou a patinar, queria mesmo era dar logo um mergulho. E eu não prestei atenção nos alertas de Al Gore. Agora corro o risco de morrer afogada.

Se for para desaparecer em algum córrego, que eu nunca mais seja encontrada. Que meu corpo seja levado o mais rápido possível para o oceano, sem que eu tenha tempo de apreciar as belezas das árvores, montanhas e cidades para não sentir medo de deixar tudo para trás. Que as águas do Atlântico me carreguem para o Sul.

Sem escalas até a Antártida. Lá, talvez os icebergs me protejam da sua volta. Você tem o Sol e as emissões de CO2 no seu time. Eu ainda luto sozinha. Não faz muito tempo e eu já tinha pensado em pendurar as luvas de boxe, passar protetor solar e abrir os braços para receber o calor com um sorriso pela primeira vez.

Mas eis que o brilho apagou, o vento apareceu e as folhas começaram a cair, uma por uma. A nevasca é apenas questão de tempo.

Pena, parece que o verão não chega esse ano. Melhor tirar o cobertor do armário e esperar o próximo aparecer.
*Escrito para o Haja Saco