Publicado originalmente no De Primeira

Enquanto Eurico Miranda batia boca com Roberto Dinamite nas eleições do Vasco, ontem de madrugada, a MTV reprisava uma partida do Rockgol 2008, um dos melhores programas que já concebeu. Em uma emissora cheia de si e quase tão volátil como o Silvio Santos, onde a troca de programação acontece com a freqüência que sua audiência troca de roupa, milagrosamente o campeonato de futebol de bandas sobrevive ano após ano.

Não há alívio melhor – por falta de opção mesmo – para quem quer escapar da hipocrisia dos dirigentes, da cornetagem da torcida, do besteirol dos comentaristas e narradores e do festival de passes errados, chutes feios, empurra-empurra na grande área e frustração dentro de campo no futebol “profissional de alto nível”.

Porque, no Rockgol, os pernas-de-pau já são esperados. Os jogadores estão fora de forma, não sabem se aquecer, marcar, cruzar, raramente se antecipam à jogada e têm péssima mira. O campeonato mantém marcas de franzir sobrancelha, como o fato de o milésimo gol do torneio ter sido feito por Felipe Dylon. Supla e Roger (do Ultraje a Rigor) representam para o programa o mesmo que Dunga (o jogador) e Cafu para a seleção. Bandas de axé, pagode, reggae, metal, rock, emo e pop se mesclam com artistas solo, têm muito menos tempo para treinar, mas até mais sintonia que muita equipe pentacampeã do mundo por aí.

Torcedores não faltam e raramente reclamam do desempenho da equipe. Não existe a figura do técnico. Um pede pra sair, deixa o campo e aí aparece outro que estava por aí, bebendo uma, e é obrigado a entrar para pagar seu mico. Mas também não existem agentes e empresários vendendo gato por lebre, inflacionando salários com especulação, desmontando times pelo lucro rápido. São todos ruins e não têm medo de rir disso. E, de vez em quando, até que sai uma jogada bonita.

A partida transmitida ontem aconteceu no Reynaldão (Estádio Reynaldo Gianechinni Junior) entre CPM 22 de Novembro de Piracicaba, que já havia vencido o Clube de Regatas Detonautas no início da semana, e Grêmio Recreativo NX Zero, que fazia sua estréia no torneio. Admito que a criatividade nos nomes das equipes está aquém de edições anteriores. Mas seria difícil superar mesmo a versão 2007, quando o Horríver Prata se sagrou campeão sobre o Milanesa, com Fenerbafo em terceiro lugar.

A equipe da banda “hardcore” veterana, com camisa de listras pretas e brancas, demonstrou superioridade em relação aos novos queridinhos da cena “roqueira” atual, uniformizados em um azul-céu com detalhes em amarelo neon. Com maior movimentação em campo, levava mais perigo aos adversários, mas a falta de condicionamento físico dos atacantes resultou em um péssimo rendimento nas finalizações.

No segundo tempo (são dois com 10 minutos cada), o NX Zero passou a arriscar mais contra-ataques, mas talvez a gritaria e choradeira de suas fãs tenha sido motivo de desconcentração, porque todos eles foram desarmados. Ou, como bem apontaram os apresentadores Paulo Bonfá e Marco Bianchi, é capaz de o choro da torcida ser resultado da péssima atuação do time, e não o contrário.

De qualquer maneira, o 0 a 0 foi justo, mas só por causa do goleiro do NX Zero e grande destaque da partida. O ex-traficante e hoje produtor musical e ator João Estrella, com 48 anos, uma barriga de dar inveja ao Cabañas e a recente fama pelo filme “Meu nome não é Johnny”, escrito por ele, salvou os companheiros de time que ainda não têm cabelos brancos da derrota, contando com algumas boas defesas e muitos chutes errados do time adversário. Não é nenhum DJ Cléston (o goleiro mais famoso da história do Rockgol, membro da banda Detonautas), mas fez bonito.

Apesar de ser uma grande brincadeira, o Rockgol bem que poderia ter alguns de seus aspectos copiados pelas emissoras que transmitem os campeonatos “sérios” de futebol. A começar pelos narradores, que transformam qualquer várzea em um espetáculo, no mínimo circense. Uma boa lição aos “verdadeiros profissionais da área”, que às vezes só deixam o show acontecer quando a televisão está sem som.

Voltando ao Eurico: bebamos todos uma cerveja hoje em homenagem ao fim dessa era, porque o Vasco merece. Espero que essa novela nunca seja reprisada. Se quiser, deixe sua mensagem de “descanse em paz” ao cartola com o filme mais queimado do Brasil no espaço de comentários.

Publicado originalmente no De Primeira

Perdi a despedida do Adriano e a inauguração do novo, colorido e modernoso placar digital do Morumbi porque a diretoria do São Paulo resolveu fechar a venda de ingressos nos setores vermelho e amarelo e causou uma fila gigante na bilheteria do lado azul e laranja.

Me irritei só pelo fato de ter perdido também os 20 primeiros minutos da partida contra o Sport, por causa da bagunça que virou a venda de ingressos. Porque, pelo que fiquei sabendo depois, a tão esperada homenagem consistiu no discurso pouco inspirador de Juvenal Juvêncio sobre tudo o que o Adriano fez pelo São Paulo, seguido pela entrega ao centroavante de uma camisa comemorativa e uma placa. Microfone pra cá, microfone pra lá, “do São Paulo à Seleção”, apresenta-se um quadro quase esquizofrênico com a imagem do jogador em pose de efeito, vestindo o uniforme azul e amarelo da Seleção embaixo do título “Imperador do Morumbi”.

Sem dúvida o trabalho de recuperação que São Paulo e Adriano fizeram juntos foi bem sucedido.

Sem dúvida o cara conquistou até os setores mais mimados da torcida, deixou sua marca, saudades e as portas abertas para retornar um dia desses.

Sem dúvida faltaram títulos, mas a média de gols do ex-camisa 10 está entre as melhores da história do time.

Sem dúvida o investimento foi dos melhores que o time fez no ano, com a venda de camisas batendo recordes e a exposição positiva que o clube e o Reffis ganharam na mídia internacional.

Entristece, porém, perceber que o reconhecimento da diretoria está diretamente ligado ao desempenho financeiro.

Muricy e sua preocupação com o brasileiro que me perdoem, mas acharia muito mais pertinente colocar o cara pra jogar com o time e, ao substitui-lo (quem sabe até depois de um último golzinho para o time), o São Paulo Futebol Clube poderia deixar que sua torcida cuidasse da homenagem à sua maneira. Seria, no mínimo, um espetáculo mais sincero e que deixaria os italianos ainda mais felizes com o que o Tricolor fez com o valioso patrimônio deles.

Porque, se Adriano bem fez por merecer, outros são-paulinos também deveriam ter sido honrados com uma placa, uma camisa comemorativa e um discurso cheio de elogios do presidente antes de sair do clube. O amigo que narrou a encenação pra mim disse bem. “Nem o Raí teve uma despedida dessas. Nem o placar teve uma despedida dessas!” Pois é, o placar velho de guerra, que deu boas e más notícias aos torcedores por 28 anos, pelo menos pôde dar seu adeus silenciosamente, anunciando a própria aposentadoria.

Publicado originalmente no De Primeira

As pernas finas, os aparelhos nos dentes, as fracas cobranças de escanteio e as dezenas de bolas isoladas na partida válida pela sétima rodada do Campeonato Paulista Sub-17 sobraram para ambos os times no último sábado na Rua Javari, bairro da Mooca, em São Paulo. O equilíbrio do jogo, que terminou em vitória simples para o time visitante no fim do segundo tempo, talvez seja o resultado da soma das diferenças entre cada equipe.

Do lado mandante estavam os jogadores federados pelo Juventus. Salário mensal de R$ 70 para treinarem todos os dias e estudarem à noite. Pela mesma carga horária de trabalho, os Meninos da Vila recebem, pelo menos, doze vezes mais e, em alguns poucos casos, muito mais do que eu e você juntos. Os santistas saíram vitoriosos e continuam liderando o grupo 6, enquanto os derrotados de sábado mantêm a segunda colocação.

Para compensar a discrepância financeira, Noêmia Navarro investe os recursos que tem: o tempo e a voz. Mãe de Mauro, o camisa 8 do Juventus, ela aproveita a proximidade da arquibancada com o campo para fazer mais barulho do que o treinador. Justifica os gritos incessantes e a batucada na cadeira de plástico dizendo que as jovens promessas são muito influenciáveis psicologicamente e, por isso, precisam de constante motivação.

Em uma manhã atipicamente popular no estádio Conde Rodolfo Crespi, os espectadores também tentava reverter a desvantagem monetária com torcida, pressão e muita parcialidade. Sobrou principalmente para o trio de arbitragem, como não poderia deixar de ser, mas decepcionou o fato de o placar mostrar que Juventus jogava contra S, e as substituições do time S terem sido ignoradas pelo coordenador do auto-falante.

O pênalti contra o time da casa, a poucos minutos do fim da partida, amargou o que já havia se tornado um festival de jogadas desperdiçadas e falta de entrosamento no ataque. Tento marcado pelo camisa 10 santista, Neymar. Chuteira vermelha da Nike, sua patrocinadora, arames prateados nos dentes, faixa amarela no braço direito e uma tremenda velocidade em campo, o capitão do Santos parece muito maior dentro de campo do que na saída do vestiário. Converteu a cobrança com tranqüilidade.

A mesma que usou para repetir todas as frases de efeito já desbotadas de tanta cópia. O meia ofensivo de 16 anos afirma que seus pontos fortes são a “habilidade e velocidade”. O ídolo sai na lata: Robinho. O sonho é a Europa, em especial os times principais da Espanha e Inglaterra, nessa ordem. Mas, claro, não pensa muito nisso, seu objetivo é mostrar serviço para subir logo para o profissional, se o treinador achar que ele tem condições.

E ele ainda acredita na seleção brasileira, considera o time bom e acha, como todos os outros jogadores, uma honra defender a camisa. Pretende se esforçar para ser convocado e diz querer trazer orgulho ao Brasil.

O segundo vexame em dois jogos da equipe pentacampeã veio no dia seguinte a essas declarações. Mesmo assim, duvido que os passes errados do Robinho tenham mudado o discurso do candidato à camisa 8 da seleção – que provavelmente ainda será pentacampeã – nas Olimpíadas de 2016, quando ainda tentará conquistar o ouro inédito. Será que a equipe sub-17 do Juventus ainda receberá R$ 70 por mês até lá?

Exercício do dia (porque físico não vai rolar): Listarei as tarefas que pesam nos meus ombros e verei quantas consigo cumprir ainda hoje.

1- Tomar banho. (é tarefa, não reclama)

2- Fazer as unhas das mãos e dos pés.

3- Varrer o chão.

4- Arrumar a cama. (é tudo tarefa, já falei)

5- Lavar as roupas claras.

6- Passar as roupas escuras.

7- Arrumar o guarda-roupa.

8- Montar o mural.

9- Pesquisar mais preços de camas.

10- Editar um texto.

11- Escrever um texto.

12- Começar a editar um vídeo.

13- Copiar a agenda do celular pra colocar no novo.

Aposta do dia: 60% do que está aí não vou fazer.

Publicado originalmente no De Primeira

Entre as dezenas de são-paulinos na fila da bilheteria no momento em que o árbitro apitou o início do jogo, me peguei observando o boné de um torcedor da Independente na fila. Era branco, com o nome da organizada na frente e a palavra “retomada” bordada em preto e vermelho na parte de trás.

A imagem só voltou à minha mente aos 38 minutos do primeiro tempo, quando Jancarlos, Hugo e a bola travaram uma conversa telepática e, com um cruzamento milimetricamente calculado e uma cabeçada impecável, marcaram o quarto gol são-paulino em cima do Atlético-MG.

Antes deles, Hernanes, Joilson e André Dias já haviam balançado a rede aos 8, 12 e 15 minutos, deixando incrédulas as 7.609 pessoas dentro do estádio, e muito mais gente do lado de fora, a ponto de ter são-paulino ligando para os amigos no Morumbi só para confirmar as informações que ouviam no rádio.

Escolher o gol mais bonito não é fácil. Aquele tiro de fora da área típico do Hernanes foi fantástico, mas o tento do André Dias, depois da enfiada de bola do Joilson, leva meu voto, pela categoria que o zagueiro mostrou.

O aproveitamento do SPFC fez os primeiros 45 minutos parecerem durar uma hora inteira até para quem perdeu os primeiros cinco minutos (meu caso).Convenhamos, parte do êxito se deve ao adversário, que permitiu a festa sem reclamar. Deixar Jorge Wágner e Jancarlos arrancarem pelos lados sozinhos e o Hernanes pintar e bordar no meio de campo foram erros fatais. Tudo bem que o Tricolor andava tão desacreditado que até o Jones achou que a partida seria equilibrada, mas o galo veio rouco demais. E saiu mudo.

Faltou deixar o Dagoberto jogar dessa vez. Era quem eu colocaria no lugar do Éder Luis, só que com mais tempo antes do fim.

É claro que uma palavra bordada em um boné, a névoa que encobriu de repente o estádio no primeiro tempo, a visita que o presidente tricolor Juvenal Juvêncio fez ao CT na quinta-feira ou um presente de consolação dos deuses para o meu aniversário (já que o Villanueva não veio, obrigada por nada, JJ) poderiam se encaixar na lista de motivos mágicos para os cinco gols bem feitos, a fome de bola e o entrosamento desse time.

Mas eu suspeito que, além da belíssima contribuição que o Atlético-MG deu aos anfitriões, ao simplesmente sumir de campo, a goleada foi resultado da vontade dos titulares remanescentes e dos reservas, que tiveram a chance de substituir o convocado, o contundido e o suspenso, de provarem que os pentacampeões ainda estão vivos.

Muricy revelou, depois da vitória, que anda perdendo muitas noites de sono tentando encontrar uma alternativa que leve o São Paulo à Libertadores 2009 e, quem sabe, ao hexacampeonato. Veremos se ele concorda comigo pelo menos sobre o potencial de sucesso da nova formação. Richalyson não serviu para a lateral, e espero que agora tome um belo chá de banco para perceber o quanto demorou para mudar de comportamento. Ninguém é insubstituível. E Hernanes e Joilson combinam como batata frita e maionese.

Não tenho nada para dizer, e tenho tudo a dizer. Quero te contar tudo. A toda hora. Pego o celular e não posso ligar, mas quero escrever uma mensagem. Digitar digitar e enter. Quero te contar dos inúmeros tons de laranja e verde que vi nas mexericas da feira. Ou o número de caroços que achei na melancia na hora do almoço.

 

Que vontade de desabafar.

Te contar todos os meus segredos.

Admitir os erros que só se revelam em códigos.

 

As carpas em todos os jardins que os japoneses construíram nos principais parques das principais cidades do mundo são quase iguais a mim. Já vêem alguém se aproximando e nadam pra lá, atrás da ração de peixe.

 

Mas eu sou mais seletiva. Só vou atrás dos outros porque você não está aqui.

 

Sejamos sinceros.

Um texto desses escrito sem suspiro algum indica que isso não é amor.

Paixão tampouco, pela falta de borboletas no estômago.

Minha condição é simples: fixação.

 

Viciei em você. Comi chocolate pra ver se era isso, mas não. É você mesmo.

 

Na verdade, não é você. Sou eu. Sou uma pomba no parque atrás do velhinho que lhe dá uma migalha. Sem medo de implorar. Sem fome de verdade, só para ter um passatempo além de ficar pendurada nos fios da rede elétrica ou fugindo de crianças no Vale do Anhangabaú.

 

Você nem sabe que inspirou tudo isso. É bom que isso continue assim.

Todo vício some depois de um tempo de abstinência.

Como o velho comeu todo o pão, se levantou e foi embora, logo logo minha fixação morre. De fome.