Publicado originalmente no Trezentos.

A campanha para que as mulheres do Twitter troquem o avatar por uma foto sua vestindo lingerie não é coisa de outro mundo. É coisa do nosso mundo mesmo, um mundo onde as mulheres não são livres. Estão presas pelo reflexo do espelho, as caixas de comentários virtuais e o movimento de pesca de novos seguidores, agora que a maré do Twitter subiu. Agora, são instadas a abandonar a autonomia sobre seus avatares. Como já o foram várias vezes, para protestar contra o Gilmar Mendes, pedir uma reeleição no Irã ou expressar sua repulsa ao Internet Explorer. Mas agora, foram instadas a mostrar ao mundo virtual o que não poderiam vestir na calçada da porta de casa.

Nasceu de um cérebro masculino este movimento. Está sendo divulgado pelos amigos deste cérebro e tem todos os ingredientes para ganhar mais repercussão que o manifesto sobre o lixo eletrônico. Com homens e mulheres também, porque não há nada mais popular que uma mulher “confiante, liberada sexualmente, sem amarras da sociedade tradicionalista e que não tem vergonha de falar sobre sexo”. Mas só será popular se reafirmar tudo isso em público, com palavras ou, melhor ainda, suportes audiovisuais. Quanto menos esforço o cérebro tenha que fazer, mais tempo ele vai ter para criar campanhas como essa.

Nem se pode culpar os empreendedores dessa idéia que tem tudo para ser um sucesso e logo ganhar uma versão anual. Semestral, semanal, o céu é o limite. São homens que desenvolveram com maestria uma fraternidade onde se apóiam constantemente e multiplicam seu poder frente aos milhares de seguidores que reúnem.

Querem aplicar as TICs para produzir sua própria Playboy. Não precisarão mais comprar revistas, esperar o concurso Musa do Brasileirão ou os ensaios do Paparazzo. Suas próprias amigas virtuais lhes servirão de consolo, e quem sabe eles não poderão acrescentar ao currículo a experiência de fotógrafo profissional, e passar a produzir seus próprios “do it yourself personal photoshoot”? Não é uma idéia nova.

Que mulher seria capaz de abdicar dos elogios e da promoção que ganhará se topar o desafio, para enfrentar as piadinhas automaticamente retuitadas? Quem tem coragem de correr o risco de ser chamada de frígida ou bigoduda, rótulos que sempre dispensam a quem defende a liberdade e a autonomia das mulheres e é contra a submissão feminina frente aos caprichos dos homens? Ou o sempre brilhante “mal-amada que não tem senso de humor” para perceber que isso tudo não passa de uma brincadeira, que é isso que a fraternidade faz, passa o dia brincando uns com os outros. Que podemos criar o dia da cueca porque somos todos iguais, no fim das contas. Uns mais iguais que os outros. Nesse caso, os homens seriam os porcos de Orwell.

Publicado originalmente no Blog das 30 pessoas.

A garoa do lado de fora só consigo perceber em um persistente pedaço do toldo, de onde caem duas gotas a cada tantos segundos. Daquelas gotas gordas que vão se acumulando até pesar o suficiente para desafiar a gravidade, a minha lei favorita da Física. A rota, brevíssima, só tem um rumo: a calçada de mosaico português. De repente me surpreendo com o tamanho da redundância. Que outro tipo de mosaico se espera encontrar em Lisboa?

Do lado de dentro o teto segue seco e um casal multinacional mantém uma conversa daquelas que parece ter começado muito tempo antes de pedir o cardápio do almoço, e que, mesmo com as xícaras de café vazias e o cinzeiro cheio, não deve nem ter chegado à metade. Ele fala inglês britânico. Ela responde em francês com sotaque, e às vezes eles trocam de idioma. Com o garçom, usam o português básico para turistas: “Eu querrro um café.”

Eu quero comer muito, mas sei que só comerei o que devo. Demoro alguns eternos minutos subtraindo o que está na minha carteira pelas cifras no papel e imaginando se, no restaurante Fonte dos Passarinhos, me entenderiam se eu pedisse o combinado de peixe, sem o peixe.

O garçom me explica que a <span style=”font-style:italic;”>omeleta</span> é suficiente para uma pessoa e a salada também é farta. Deve pensar que eu como igual passarinho, o que não só inspira qualquer piada sem graça sobre o nome do local, mas explicaria também a minha menos engraçada fome, agora que o prato se esvaziou.

Ali fora, a Penélope Cruz acaba de passar, em versão gigante, estampada nas laterais de um <span style=”font-style:italic;”>elétrico</span>. Aqui dentro, o canal Sport-TV1 transmite ao vivo a brava resistência do Arsenal, agüentando a pressão do Tottenham Hotspur na casa do inimigo, com um homem a menos desde o final do primeiro tempo. A partida segue sem <span style=”font-style:italic;”>golos</span>.

Meu garçom não tem tempo de ver o jogo. Está ocupando vestindo calça social preta e camisa de botões branca, com finas listras horizontais cinzas e verticais vermelhas. Dobrou as mangas para revelar metade do antebraço sem relógio. Dois botões se recusaram a entrar nas respectivas casas.

Quero me casar com ele. A pele clara da sua nuca ressalta algumas pintas desenhadas a esmo abaixo dos cabelos fartos e escuros. Pelo rosto, apenas três: duas no lado esquerdo do queixo, uma acima do osso da bochecha. Vizinha do nariz com canto fino e ponta larga e colega dos olhos negros que se espremem quando sorri. Desliza pelas mesas, aparece sem avisar pelo meu lado direito e exerce tanta autoridade sobre os copos na prateleira que eles parecem já saber onde ir, sem que precisem ser tocados.

Nosso casamento está ameaçado. Seus sonhos ultrapassam as paredes do Fonte de Passarinhos. Fala com o casal trilíngüe sobre a vontade de visitar Viena e Praga. Pede dicas sobre cervejas brasileiras e escuta que o ouvi verde e amarelo não é bom. Recebe outro cliente regular repetindo o popular “yes, we can” e contando histórias sobre sua viagem de alguns dias aos Estados Unidos. Endireita as costas para inspirar melhor enquanto se lembra dos detalhes. Apóia o peso do corpo na perna direita e olha para fora do restaurante, onde a chuva já foi e voltou três vezes e a goteira mantém o exato comportamento de alguns parágrafos atrás.

Talvez esse romance dê certo. Ele busca um horizonte com a mente, mas só vê uma praça onde várias pessoas esperam chegar o <span style=”font-style:italic;”>autocarro</span>. No Jornal de Notícias, a “reportagem de domingo” ocupa as páginas 4 e 5 com depoimentos de portugueses emigrantes. Querem deixar a Península Ibérica para morar em Luanda, onde o salário é três vezes maior e há tanta procura que a lei angolana permite apenas uma cota de um terço de funcionários estrangeiros por empresa. O repórter avisa que só sobrevive à aventura quem abandona os “saudosismos e paternalismos” na velha metrópole e aceita “trabalhar muito” para enfrentar a concorrência de chineses e brasileiros. Estão redescobrindo o mundo, dessa vez sem caravelas.

Mas aqui na Fonte dos Passarinhos, onde meu marido fará carreira e eu comerei o <span style=”font-style:italic;”>pequeno almoço</span> todos os domingos, não há crise. Não se fala em desemprego, embora eu entenda pouco o idioma falado, cheio de expressões mais próximas ao espanhol que ao tal <span style=”font-style:italic;”>brasileiro</span> a que se referem constantemente quando citam a língua que eu falo.

Em cinco minutos completarei 24 horas vivendo em Portugal. Amanhã, serei novamente residente da <span style=”font-style:italic;”>Galiza</span>. Mas tenho vontade de dizer ao garçom que já conheço muitos países do mundo e que ele pode ficar tranqüilo. Porque não há lugar melhor que esta cidade bagunçada, com calçadas em mosaico encravado no asfalto, edifícios antigos e descuidados, mas lindíssimos com suas fachadas cobertas de azulejos. De todas as cores e formas. Que, se ele quisesse, eu viveria aqui, em um desses edifícios. Comeria rabanada e pastel de nata, aprenderia a fazer <span style=”font-style:italic;”>pataniscas</span> e passearia com ele pelo teleférico no Beiratejo, onde veríamos o entardecer mudar as cores do céu.

*Here’s why whining doesn’t work as well as being proactive (and polite). Not only did they reply to my e-mail right away, but a few hours laters they implemented the flash thingy I suggested. I <3 them Twitter folks.

Dear folks at Twitter,

First of all, I think you guys are cool just to be working at an awesome place like Twitter. I’m pretty sure you all agree that Twitter is wicked and you want to help make it even better than it already is.

I also know that “consumers” tend to be a bunch of whiners. They whine when the waiter brings the normal Coke instead of diet, or that the cheese was melted, not shredded. They whine then and there and then go to their Twitter to whine some more. Then they whine asking for the other whiners to retweet them so more people will be aware that waiters are human beings and that all human beings, whether they whine or not, are not perfect.

The whiners think that just because they’re “the client”, they’re always right, and have the right to whine all they want. We all know that a collaborative society isn’t about consuming, or whining. It’s about team work.

That being said, I guess it’s crystal clear that Twitter is not perfect, because it is made by human beings. Nonetheless, it is cool. I like it just as much as you guys. But I thought maybe I could share with you some thoughts I had on a specific area I notice you’ve been working on these past few days: the followers page.

There is only one thing I hate about Twitter, and that is spam. I hate the fact that anyone gets to follow me because THINGS begin to follow me. Things such as bots, corporate accounts and pairs of breasts. They follow me like crazy, and I suspect it has nothing to do with what I post. They get a hold of me whenever I post and show up on the timeline. They are sneaky little rugrats!

Well, you already know that, as sometimes, when you guys are on a roll, you already suspended the account by the time I try to block it. Nonetheless, there are times when it seems you already know that account is doomed to be suspended because it shows up on my followers page, but I don’t get an e-mail alert.

And there are times when there’s some sort of a glitch. A few days ago, and more people noticed it too, some bots started following the people who were tweeting. We blocked them, but they still show up on our followers page, even though it says they are blocked. That was a first for me, and I can imagine you understand how disturbing it is to see pairs of boobs on my followers page without having the power to remove them. (I guess it is convenient to clarify that, to me, softcore porn is still porn.)

The new bots that found me after that have all been adequately banned, but these ones from last Sunday remain and I hope you can make them gone soon.

Also, I would suggest that you made it easier for people to ban other people. I understand the concept of excluding someone from accessing your account seems mean, arrogant, selfish and has little to do with the collaborative society I defended a couple paragraphs ago. Nonetheless, I only use execute my prerogative to ban when it comes to bots and spam. And when they show up in bunches (as is their style), it bothers me immensely having to go to a different page to read the warning about the consequences of a ban, before I can confirm that, yes, I want to ban that account.
I understand the importance of such warning, I really do. But I suspect that, now that you guys have remodelled the followers page with more details, you will probably also be able to come up with a cute little flash script or whatever it is you guys call it that will pop up a window nice and easy that includes a short version of the warning, but also allows me to happily ban all the pairs of breasts I please. I promise I will use this new and liberating power with moderation.

Hope you are all having a fantastic time trying to cook things up to make Twitter even cooler, and that my request isn’t all that absurd.

All the best,

@anarina