Um texto que ficou empoeirando nos últimos dois meses e foi publicado ontem no Trezentos.
Pouca gente realmente se permite tempo para fechar a mente dos intermináveis estímulos externos, baixar o volume dos instintos naturais, dar alguns passos para trás e ver a vida de uma perspectiva abrangente, livre da força gravitacional do próprio umbigo. É por isso que o machismo, assim como todos os preconceitos que permeiam as atitudes das pessoas em vários âmbitos (privado, público, particular, coletivo) seguem vivos e parecem criaturas gigantes que caminham com as próprias pernas por sobre as nossas cabeças. Na verdade, nossas cabeças é que dão apoio, auxílio e patrocínio a essas entidades, que não passam de uma versão virtual de seres pluricelulares sem qualquer autonomia de movimento. Eis a ilusão que sustenta a realidade de todas as injustiças do mundo.
Apesar do excesso de poesia do primeiro parágrafo, esse não é um conceito complexo, e o fato de ser aplicado apenas por uma minoria não quer dizer muito sobre uma suposta natureza cruel e imutável do ser humano. O problema é que pouco tempo escapa das garras da tríade do comportamento contemporâneo: o trabalho, ao qual dedicamos cada vez mais horas dos dias (úteis ou não), buscando recursos para sustentar o consumismo ao qual somos condicionados a direcionar nossas atenções porque é o único caminho para alimentar a necessidade que sentimos de pertencer a certo grupo social.
Falta tempo para quebrar a própria cabeça tentando entrar na cabeça do outro e ver a mesma situação sob um prisma que pode nos trazer novos dados e contextualizar nossa visão do mundo. Além disso, o bombardeio de informação, do qual se aproveita quem tem motivos políticos para manter qualquer debate na superfície, consegue criar uma verdadeira sopa de letrinhas altruísta, onde termos e expressões se esbarram, se misturam e se fundem até alguém colocar tudo no mesmo saco, fechar com um nó e jogar no lixo. “Caridade”, “beneficente”, “esmola”, “dar o peixe em vez de ensinar a pescar”, “culpa católica”, “politicamente correto”, “campanha do agasalho”, “andar com os sapatos do outro”, “meritocracia”, “lobby”… No fim dessa estrada congestionada por tratores, tudo tem potencial para virar sinônimo de qualquer coisa mais vazia e distante de compreensão. E então chega a noite, vamos dormir e no dia seguinte a vida segue igual.
Mudar, portanto não é um exercício fácil. Mas, se você chegou até aqui e não tem nada muito interessante para fazer nos próximos minutos, te convido a pelo menos tentar, sem compromisso. Comecemos pelo argumento que mais te interessa: Não, mudar, aqui, não significa que você terá que dar o braço a torcer, admitir a culpa por todos os seus erros e também pelos erros dos outros que vieram antes e virão depois de você. E prometo que, dependendo do grau de atrofia da sua massa cinzenta, não vai doer.
Vai te custar um pouco de esforço, claro. Primeiro teremos que partir do pressuposto de que você não é o dono da verdade, e que aquela força gravitacional do seu umbigo é uma ilusão sustentada pelo espelho distorcido com o qual a mídia te transmite uma percepção recortada da realidade. Tudo bem, eu sei que eu não precisava colocar as coisas de maneira tão grossa. Te garanto que não é um insulto. Mas precisamos concordar, meu bem, que a verdade é algo muito maior e onipresente que a sua singela existência. Além do mais, você vive uma posição privilegiada em relação à maioria dos seres humanos e, apesar de conseguir ver o palco bem de perto, sentado aí na sua poltrona acolchoada e com crachá VIP no pescoço, existe muita gente atrás de você. Das fileiras da frente não se pode ter uma visão tão boa desse estádio lotado. E eu te digo, ele está abarrotado de gente.
Enfim, assim podemos concluir que você não sabe tudo sobre todos, mas que pelo menos você conhece uma parte do todo de qualquer problemática que te toque direta ou indiretamente. No caso das relações sociais de gênero, a coisa não é diferente. Afinal, você lida com pessoas do outro sexo o tempo todo.
Mas isso não quer dizer que a coisa anda bem. A começar pelo fato de que pensar as relações sociais a partir do gênero já é um jeito bem simples de dar zoom em um detalhe e se esquecer do tal estádio lotado. Homens e mulheres são, antes de tudo, seres humanos. São pessoas. E se analisamos essas pessoas primeiro sob qualquer outra ótica que não seja sua condição humana, estaremos sendo injustos antes mesmo do apito inicial.
As pessoas vivem em sociedade e, portanto, suas vidas estão rodeadas de fatores externos a elas mesmas que as pressionam, marcam, influenciam, traumatizam, obrigam ou desobrigam, atraem ou repelem. Mas esses fatores não as definem, porque o que define uma pessoa é a maneira como ela reage internamente a todos esses impulsos. E é por isso que, quando você for definir qualquer pessoa, por melhor que a conheça, você muito provavelmente estará fadado a meter o pé na jaca.
É claro que, aqui, a tal “sociedade”, (ou “mainstream”, ou “sistema”, ou “matrix” ou qualquer outro “sinônimo” -entre aspas porque, na verdade, não o são- que você quiser usar) entra para confundir ainda mais as coisas, porque permite que entidades privadas (os meios de comunicação) passam o dia definindo as coisas por nós com cada vez menos regras e rigor. Sem contar que o julgamento automático de um preto mal vestido e uma loira de minissaia, entre outras lições que aprendemos desde a infância, parece que está dentro de nós desde o nascimento e, portanto, nos parecem tão verdadeiros como o parentesco sangüíneo que sentimos a respeito da nossa mãe.
Isso tudo parece muito elementar, depois de escrito com tanta obviedade, mas o tipo de relacionamento que mantemos com qualquer pessoa depende justamente do nosso grau de abertura em relação ao resto do mundo. Com nossos pais e irmãos podemos até manter verdadeiras guerras, mas é justamente pelo fato de os conhecermos e confiarmos tão bem que poderemos ser seus inimigos. Amigos de infância, primos distantes, o vizinho do andar de cima, o porteiro, colegas de trabalho dos quais gostamos, colegas que detestamos. Com cada uma dessas pessoas interagimos a partir de uma posição distinta e sentimos um grau específico de direitos, deveres, vontades e obrigações. Mas no fim do dia são todos seres humanos.
Ou seja, nossa relação com cada uma dessas pessoas varia de acordo com o quanto as aceitamos pelo que elas realmente são, e não pelo que esperamos que sejam. Tolerância e respeito ganham um novo significado dentro dessa ótica e, para alguém que pretende se livrar dos julgamentos, tornam-se dois valores dos quais não se pode prescindir desde o ponto de partida desse relacionamento.
Aí chegamos a esse tal novo ponto de vista, que pode ser muito difícil de engolir, especialmente quando se trata daquela magrela com voz estridente que trabalha no departamento de RH. Eu bem avisei que não seria fácil, mas deixo que você reclame à vontade nos comentários.


