Pero me parece que es perfectamente posible.

Del silencio, de los nombres femeninos que aparecen por todos los lados. De saber que no significan nada pero de no contentarme con el hecho de que tu indiferencia no tiene que ver conmigo ni con ellas, sino contigo mismo.

Borrarte cuando se presente la oportunidad.

Publicado originalmente no Blog das 30 pessoas.

Na sala, cortinas cor salmão que acumularam pó durante um semestre, enquanto esse apartamento de esquina esperasse para dividir o papel do contrato com o número do meu passaporte. Cadeiras desconfortáveis, uma mesa de centro que não combina com a de jantar e um lustre horroroso, mas digno do Palácio de Versailles quando comparado ao do quarto.

O colchão é mais duro que tijolo e não sei como podem as formigas subirem dezessete andares por dentro das paredes até chegar à cozinha. Mas o banheiro está sempre tão limpo que me sinto em Hogwarts. Uma Hermione provocada pela umidade trópica que se enreda nos meus cabelos assimétricos e, agora, anti-gravitacionais.

Durmo só com um lençol e sem meias em cima do colchão sem cama. Passo a noite toda presa naquele limite entre o frio e o conforto e acabo sonhando com narrações machadianas sobre a morte em vida até que a manhã me traz o salvo-conduto para vestir sapatos e uma blusa.

Minhas costas doem eternamente porque as malas são sempre mais pesadas do que deveriam. Um cachecol extra, uma troca de roupa de emergência, o presente coringa e um par de tênis caso o pé reclame em forma de bolha. Todos itens inúteis, porque cachecol só é preciso um, as peças de roupa não combinam entre si, o presente derrete esquecido dentro de um bolso e não há tênis que cale uma bolha bem formada.

Me enfiam em um ônibus, um carro, um bar, um avião, outro avião e perco a minha bússola. E então corro para voar sem saber aonde vou. Avisaria quando eu volto, mas não sei de onde saí. Meu laptop não quer conhecer mais novas redes sem fio e definitivamente não nasceu para o cabo encapado em azul.

Estamos eu e ele fartos dessa condição, mas cientes da inexistência de alternativas. Assim como os brasileiros não têm alternativa à desigualdade e os espanhóis não podem fugir do desemprego, nós também seguiremos carregando a casa nas costas. Nos três casos, a solução demanda subverter o sistema e, convenhamos, nenhum de nós tem coragem para tanto.