E também voltou o Bob Dylan a ecoar sem fones de ouvido. Beirut, Vampire Weekend, Jeff Buckley e todas as músicas deprimentes que nos alegram tanto.

Comidas com fofocas aos domingos, caminhadas com fofocas de madrugada e felizmente a tradição do bolão dos Oscars não cruzará a fronteira de Portugal. Porque hoje dormimos. Ela menos que eu.

Entende-se facilmente que muitas podem não gostar dela. A inveja, afinal, é um dos efeitos colaterais da competição desenfreada pelo topo da pirâmide de mulheres perfeitas. Em qualquer situação onde a vêem pela primeira vez, ela é o primeiro inimigo detectado visualmente: alta, magra (mas com curvas), olhos verdes acendendo a pele clara que contrasta com as mechas escuras e nunca descabeladas.

Toda vez que a etiquetam em uma foto dos seus álbuns aparece um amigo para perguntar quem é a tua amiga gata. E esse sorriso irretocável? Que raiva deve dar.

A coisa piora quando ela revela que, além da beleza exterior, é inteligente, divertida, perspicaz e totalmente confortável com sua personalidade. Até sua série interminável de traumas a torna ainda mais adorável e logo todos ao redor começam a suspirar. Ai ai, que raiva deve dar.

Tenho resquícios de valores que engoli há anos onde dava raiva ver cútis mais limpas, pernas mais longas, unhas menos tortas, bocas mais largas, roupas mais bonitas, notas mais altas. Comparava sempre meus defeitos com as virtudes das inimigas e depois tentava impor minhas virtudes sobre suas falhas para rir por último. Guerras longas e não-declaradas. Dentes rangendo e sobrancelhas

Nunca dava certo, porque minhas olheiras profundas, minhas panturrilhas compactas, meu mindinho inclinado e minhas roupas descombinadas continuavam lá.

E ainda continuam, mas hoje eu não comparo nada com ninguém. Não alimento inimizades silenciosas e muito menos declaradas a pessoas apenas porque elas, por serem mulheres, automaticamente se convertem em concorrentes. A solidariedade feminina é um conceito difícil de compreender e não o explicarei aqui. Mas foi justo porque eu, anos atrás, rechacei a competição e adotei a colaboração, que ganhei uma hermana.

Que é linda por fora, mas que renuncia aos seus rituais de beleza e janta comigo quando eu estou por perto. Que pode deslizar mais facilmente na caixa onde querem enfiar todas nós, mas também se sente desconfortável dentro dela. Que é igual a mim, torce por mim, liga pra mim e me aceita até com o mindinho torto. Como poderia sentir raiva de alguém assim?

Publicado originalmente no Blog das 30 pessoas

–1–
Dedico a ti o primeiro parágrafo não por seres tu meu preferido. Não és. Mas teus lábios mornos que odiavam beijar-me e teus dedos frios que rechaçavam tocar-me me ofereceram quase meio ano de uma liberdade que só experimentarei de novo se um dia encontrar outro tu. Já sabemos que é único o conjunto de 56 pintas, músculos magros, apito, bloco de notas, quepe de piloto e roupa de adolescente que formas com um muro intransponível ao redor. Por isso te escrevo esse recado, o primeiro, como agradecimento.

–2–
Levo-te do lado de fora no pulso esquerdo e do lado de dentro no coração. Tua companhia me enche de tudo o que eu preciso quando preciso, mas sei que a reciprocidade não te é suficiente. Difícil entender porque parece que nossos diálogos estão em algum roteiro escondido atrás dos espelhos. E me recuso a chegar a uma conclusão por minha conta. Me ajudas?

–3–
Nossa sinceridade é mais especial que todas as coincidências que nos aproximam. Queria ter demorado menos entre conhecer-te e te conhecer, mas o passado e o futuro são palavras vazias agora.

–4–
Pela primeira vez, você é a porta e eu sou o muro. Mas, além da maçaneta sem chaves nem trancas, seu olho é mágico. Que ele não se transforme em binóculo.

Estoy lista para África. Bueno, he estado lista para África desde que volé por encima de un enorme territorio naranja en el 2005. Pero ahora tengo lo que necesito para que me dejen pisar en desgastado suelo africano: el billete de un vuelo que de hecho aterriza allí, la cartilla internacional de vacunación debidamente estrenada con una vacuna que me vale por diez años, pero no ese viaje, y el repelente para situaciones extremas. Dejaré como sugerencia que se adopte como requisito obligatorio leer este texto antes de embarcar.

Me voy a Cabo Verde unos cuantos años después que Darwin, aunque no tendré tiempo para explorar la biodiversidad como lo hizo él. Me voy a trabajo. Y por cierto, me encanta mi trabajo.

Estos días he tenido más frío que una sudamericana ya adaptada y armada de un radiador portátil suele tener. Supongo que sea la idea de que pasaré una semana entre los 20 y los 30 grados centígrados y completamente, seguramente, decididamente, sin la compañía de precipitaciones del cielo. Pero sí me acompañan mis colegas de trabajo, a quienes solo he conocido hasta hoy por sus impresionantes esfuerzos para trabajar de maravilla con tan pocos recursos.

Irse a África mete a cualquiera en una nueva perspectiva. Digo yo. Por ahora.

i am being haunted by 56 moles.

Publicado originalmente no Blog das 30 pessoas.

Perdi a contagem de quantos dias passaram desde que voltei à minha casa. Quando entrei nela disse –Mi casita!, mas suspeito que fui organicamente inclinada a dizê-lo porque estava acompanhada, assim como já sou organicamente programada para acentuar a palavra “orgânicamente” porque os substantivos e seus derivados não me soam mais como palavras distintas, e sim como variações da mesma que, se tem acento proparoxítono, não perde nem quanto a sílaba tônica deixa de ser a antepenúltima. Esdrúxulo, eu sei, mas aqui onde eu moro é assim.

Bem, isso não é totalmente verdade. Estivesse eu sozinha, teria dito o mesmo, mesmo que mentalmente. E então sorriria pensando em como a frase soara vazia. Porque passei um mês dizendo o mesmo da minha outra casa, ainda que, dentro dela, eu escondia a palavra “outra” para não revelar meus costumes pouco monogâmicos. No momento em que pisei ali parecia que nunca tinha saído, e que os treze meses anteriores tinham sido apenas um sonho.

Eu usaria a palavra bigamia, mas estou certa de que magoaria mais de uma amante. Porque eu já me senti assim antes e só não digo que a experiência foi idêntica porque daquela vez eu disse –My home!, e dessa última o sonho foi bem conturbado.

E então uma enchente muito mais forte do que a que periodicamente me converte em desabrigada arrancou a casa muita gente, mas eles se preocupavam mais com sua família que foi arrastada junto. Porque sem uma dessas não há lar. E estamos todos tentando minimizar a necessidade física para que o lar possa ser reconstruído de dentro para fora por quem sabe muito bem onde quer chegar. É claro que paredes, teto e microondas são itens secundários e então olhei os meus iguais e disse –Minha casinha! e pelo menos soube a minha origem, o que dizem ser o primeiro passo para se aproximar do destino.

Aí chegou a hora da separação e a intuição de que dizem um monte de coisa vazia. Ela foi breve e desprendida como sempre. Quando olhei para trás ninguém encontrou meus olhos e eu sorri de novo porque isso de achar que a casa da gente está em algum lugar é mesmo uma tolice, para não dizer perda de tempo, caso a gente insista em sair procurando esse lugar pelo mundo.

Ele não existe e quem diz que o encontrou deveria guardar esse segredo em silêncio, para poupar o resto de nós da crueldade de já ter o mapa rasgando de tanto abrir, virar, fechar, anotar, levar para bem perto dos olhos, dobrar e ainda guardar no bolso de novo, caso ele se torne necessário.

Pero me parece que es perfectamente posible.

Del silencio, de los nombres femeninos que aparecen por todos los lados. De saber que no significan nada pero de no contentarme con el hecho de que tu indiferencia no tiene que ver conmigo ni con ellas, sino contigo mismo.

Borrarte cuando se presente la oportunidad.

Publicado originalmente no Blog das 30 pessoas.

Na sala, cortinas cor salmão que acumularam pó durante um semestre, enquanto esse apartamento de esquina esperasse para dividir o papel do contrato com o número do meu passaporte. Cadeiras desconfortáveis, uma mesa de centro que não combina com a de jantar e um lustre horroroso, mas digno do Palácio de Versailles quando comparado ao do quarto.

O colchão é mais duro que tijolo e não sei como podem as formigas subirem dezessete andares por dentro das paredes até chegar à cozinha. Mas o banheiro está sempre tão limpo que me sinto em Hogwarts. Uma Hermione provocada pela umidade trópica que se enreda nos meus cabelos assimétricos e, agora, anti-gravitacionais.

Durmo só com um lençol e sem meias em cima do colchão sem cama. Passo a noite toda presa naquele limite entre o frio e o conforto e acabo sonhando com narrações machadianas sobre a morte em vida até que a manhã me traz o salvo-conduto para vestir sapatos e uma blusa.

Minhas costas doem eternamente porque as malas são sempre mais pesadas do que deveriam. Um cachecol extra, uma troca de roupa de emergência, o presente coringa e um par de tênis caso o pé reclame em forma de bolha. Todos itens inúteis, porque cachecol só é preciso um, as peças de roupa não combinam entre si, o presente derrete esquecido dentro de um bolso e não há tênis que cale uma bolha bem formada.

Me enfiam em um ônibus, um carro, um bar, um avião, outro avião e perco a minha bússola. E então corro para voar sem saber aonde vou. Avisaria quando eu volto, mas não sei de onde saí. Meu laptop não quer conhecer mais novas redes sem fio e definitivamente não nasceu para o cabo encapado em azul.

Estamos eu e ele fartos dessa condição, mas cientes da inexistência de alternativas. Assim como os brasileiros não têm alternativa à desigualdade e os espanhóis não podem fugir do desemprego, nós também seguiremos carregando a casa nas costas. Nos três casos, a solução demanda subverter o sistema e, convenhamos, nenhum de nós tem coragem para tanto.

El hombre de las reglas y su zona de confort tienen límites claros como la tarde de sol que te acompañó durante aquel viaje en coche cuando aún creías que lo podías soportar: Se prohíbe el toque físico en público. Por cierto, cuanto menos contacto entre pieles, no importa cuál sea el tamaño de la audiencia, mejor. Se permite cenar si la cena consiste en las galletas de siempre, y ni se te ocurra inventar otro plan. La concentración debe tener prioridad sobre los sentimientos y no se aconseja saltar la normativa metodológica, aunque el nivel de drama de una situación no puede ser controlado.

Pero al niño dicen las almas bien intencionadas que merece una oportunidad de cambiar las reglas. Nunca ha pasado por eso y no sabe muy bien qué hacer. Ser listo es un privilegio que los menos limitados moralmente usan con selectividad. Y luego te das cuentas que no son las reglas del hombre de las reglas que se las han saltado.

Son las tuyas, las que criaste tras años de experiencias malas, porque de las buenas no se aprende nada. Tu regla de más sol y menos problemas se la paparon con gusto, pero la digirieron y la defecaron mientras el solsticio de verano se alejaba. Tu regla de fijarte en quien gustas y olvidarte el resto fue sutilmente borrada día tras día, semana tras semana de silencio y breves gestos de rechazo disfrazados de postura profesional. Fuiste engañada, porque no le gustas y no hay “lo sientos” suficientes en el mundo capaces de hacer brotar el cariño de la nada.

Tardaste en darte cuenta de que te hicieron una trampa y te la papaste como una niña de 15 años. Presa en un noviazgo adolescente, una relación cada vez más virtual y menos real. Ya no te acuerdas de cuando fue real, y no te sorprendería que un día descubrieras que la respuesta es nunca.

Porque nunca las reglas del hombre de las reglas han movido siquiera un milímetro hacía la mitad del camino. Y siempre supiste que las relaciones que viajan por calles de sentido único nunca llegan a cualquier sitio.