Entende-se facilmente que muitas podem não gostar dela. A inveja, afinal, é um dos efeitos colaterais da competição desenfreada pelo topo da pirâmide de mulheres perfeitas. Em qualquer situação onde a vêem pela primeira vez, ela é o primeiro inimigo detectado visualmente: alta, magra (mas com curvas), olhos verdes acendendo a pele clara que contrasta com as mechas escuras e nunca descabeladas.
Toda vez que a etiquetam em uma foto dos seus álbuns aparece um amigo para perguntar quem é a tua amiga gata. E esse sorriso irretocável? Que raiva deve dar.
A coisa piora quando ela revela que, além da beleza exterior, é inteligente, divertida, perspicaz e totalmente confortável com sua personalidade. Até sua série interminável de traumas a torna ainda mais adorável e logo todos ao redor começam a suspirar. Ai ai, que raiva deve dar.
Tenho resquícios de valores que engoli há anos onde dava raiva ver cútis mais limpas, pernas mais longas, unhas menos tortas, bocas mais largas, roupas mais bonitas, notas mais altas. Comparava sempre meus defeitos com as virtudes das inimigas e depois tentava impor minhas virtudes sobre suas falhas para rir por último. Guerras longas e não-declaradas. Dentes rangendo e sobrancelhas
Nunca dava certo, porque minhas olheiras profundas, minhas panturrilhas compactas, meu mindinho inclinado e minhas roupas descombinadas continuavam lá.
E ainda continuam, mas hoje eu não comparo nada com ninguém. Não alimento inimizades silenciosas e muito menos declaradas a pessoas apenas porque elas, por serem mulheres, automaticamente se convertem em concorrentes. A solidariedade feminina é um conceito difícil de compreender e não o explicarei aqui. Mas foi justo porque eu, anos atrás, rechacei a competição e adotei a colaboração, que ganhei uma hermana.
Que é linda por fora, mas que renuncia aos seus rituais de beleza e janta comigo quando eu estou por perto. Que pode deslizar mais facilmente na caixa onde querem enfiar todas nós, mas também se sente desconfortável dentro dela. Que é igual a mim, torce por mim, liga pra mim e me aceita até com o mindinho torto. Como poderia sentir raiva de alguém assim?